O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivo alheio algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

29/10/06

113-“Deixei o meu Coração em África”, Manuel Arouca

Do livro de Manuel Arouca “Deixei o meu Coração em África” publicado recentemente pela Oficina do Livro (2005), um pequeno excerto que relata, com pequenas imprecisões, factos verídicos relacionados com o “Aero Clube de Moçambique”.

Manuel Arouca, nasceu em Porto Amélia a 3 de Janeiro de 1955.

Os dois.... rumaram de seguida para o Aero Clube de Moçambique (1). Era uma outra faceta do pai, - apaixonado dos aviões e sócio do Aero Clube - que Guida queria dar a conhecer a Ricardo: Gente que vivia uma realidade completamente distinta do jet set do Grémio. Nas suas patuscadas e aventuras, além do ya, chamavam aos brancos whites.

O Aero Clube encontrava-se inserido no Aeroporto Internacional. No seu cantinho, como os pilotos dos teco-tecos diziam no gozo, erguia-se um hangar com cobertura de zinco, onde, no seu interior e exterior, se espalhava um numero significativo de avionetas Piper Tripacer, Piper Comanche, Super Cubs, Austers, Cessnas, Tigers, um bimotor Twin Comanche, Chipmunks, decisivos na instrução e formação de pilotos. Os primeiros pilotos da DETA foram ali formados. A filha do Engenheiro Rui Ramos (2) mostrou com vaidade o primeiro avião do Aero Clube, um Hornet Moth com matricula CR-AAA (3). Uma ave rara. Explicou-lhe, andando em direcção ao avião do pai, que aquele Aero Clube fazia muito mais horas de voo do que todos os Aero Clubes da metrópole juntos. Fê-lo entrar num Cessna 206 pintado com cores vivas, que tinha lugar para o piloto e cinco passageiros. Aí tirou de uma pasta de couro com fivela um álbum de fotografias e recortes de jornais, onde o seu pai participava em festivais aéreos no aeródromo da cidade de Durban. Tinha como inseparável companheiro destas acrobacias loucas e vistosas o comerciante e infatigável impulsionador das actividades do Aero Clube, Rui Monteiro. Eram conhecidos pelos Ruis, os RR. E, na fotografia que se seguiu, via-se o Chipmunk do Rui Monteiro voando rente ao solo, em corrida acesa com o Cooper S de Xavier de Melo, no autódromo do Xilunguine. (4)

-Isto é único! - exclamou o meu amigo.

Mas as proezas daquele vasto número de pilotos não se ficavam por ali. Dizia Guida, subindo o entusiástico tom de voz:

- Nos Auster eles fazem a distribuição do correio. Nas cheias há populações que chegam a ficar seis meses isoladas do mundo. (5)

O que Ricardo não fazia a mínima ideia era que o voo curava a tosse convulsa (6). Tinha nas mãos umas fotografias com crianças ladeadas pelas mães, o Rui Monteiro (7) e o Rui Ramos.

- Metia dó ver aquelas crianças a tossirem cavernosamente. A todo o momento, pareciam que iam ficar sem ar.

- Não havia remédios? – interrompia o perplexo Comando.

- Ainda há bem pouco tempo, pouco ou nada faziam. Então as crianças iam nos aviões com as mães, porque muitas vezes vomitavam quando chegavam lá a cima. Também adormeciam. A primeira vez o meu pai, coitado, pensou que o miúdo tinha morrido. Depois habituaram-se. Faziam três voos, sempre a subir e a descer lentamente. O primeiro a 1.000 metros, o segundo a 2.000 metros e o ultimo a 3.000 metros. Geralmente, ao segundo, já estavam curados. Não falhava.

(1) O autor chama-lhe Aero Clube de Lourenço Marques.

(2) Eng. Rui Ramos – ficção ou realidade? Alguém que elucide se existiu de facto o Eng. Rui Ramos!

(3) Refere-se o autor certamente ao Hornet Moth CR-AAC, terceiro avião da DETA e oferecido ao Aero Clube em Junho de 1967. Não foi de facto o primeiro avião do Aero Clube de Moçambique. (ver artigo 49). O CR-AAA foi o primeiro avião da DETA e sempre pertenceu à mesma. (ver artigo 26).

(4) Refere-se ao descrito no artigo 50.

(5) Esta era uma das missões das FAV - Formações Aéreas Voluntárias (artigo 54).

(6) Voos de tosse convulsa, muito em moda nos tempos idos em Moçambique!

(7) Rui Novais Leite Monteiro – ver artigos 49, 54 e 60.

José Vilhena

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