O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivo alheio algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

12/10/14

04/09/14

877 - A MINHA HOMENAGEM AO COMANDANTE AUGUSTO JOSÉ RODRIGUES (1925 – 2014)

Homenagem do Cte. Joaquim Primavera ao Cte. Augusto José Rodrigues



A MINHA HOMENAGEM AO COMANDANTE AUGUSTO JOSÉ RODRIGUES (1925 – 2014)


NO MEU PRIMEIRO VOO NUM DAKOTA, COMO CO-PILOTO DA DETA, O COMANDANTE DESSE VOO FOI PRECISAMENTE O COMANDANTE AUGUSTO RODRIGUES.
COMO DEVEM CALCULAR PREPAREI-ME CAUTELOSAMENTE PARA O VOO, E PARA QUE NÃO HOUVESSE QUALQUER ATRASO PRECAVI-ME COM O AUXÍLIO DE UM DESPERTADOR QUE INCRIVELMENTE PERMANECEU MUDO E QUEDO. POUCO DEPOIS A FÁTIMA DESPERTOU ASSUSTADA JÁ  PERTO DA HORA DE APRESENTAÇÃO PARA O VOO. FARDEI-ME RAPIDAMENTE E SAÍMOS APRESSADOS EM DIRECÇÃO AO AEROPORTO.
DISPONDO FELIZMENTE NA ALTURA DE UMA VIA PRATICAMENTE DESIMPEDIDA AQUELA HORA DA MANHÃ CHEGUEI ÁS OPERAÇÕES DE VOO NO AEROPORTO DE MAVALANE APENAS COM CINCO MINUTOS DE ATRASO.
-       AS MINHAS DESCULPAS COMANDANTE ... E LÁ TENTEI JUSTIFICAR AQUELA SITUAÇÃO, DIGA-SE QUE DESCONFORTAVELMENTE PELA PRESENÇA DAQUELE HOMEM QUE SORRINDO IMPRESSIONAVA PELO SEU TAMANHO FÍSICO!
-       PRIMAVERA. O PROBLEMA ERA SEU SE FALTASSE AO VOO ... E ACRESCENTOU NUM TOM CALMO E COMPLACENTE ... FALAMOS DEPOIS NO AVIÃO.

DA SEGUNDA VEZ QUE VOLTAMOS A VOAR, ESTÁVAMOS NA PLACA DE ESTACIONAMENTO DO AERÓDROMO DO MATUNDO, EM TETE, A AGUARDAR AUTORIZAÇÃO PARA INICIAR O TAXI PARA A POSIÇÃO DE DESCOLAGEM DA CABECEIRA SUL, DO LADO DO RIO ZAMBEZE MAS QUE DEMORAVA PELA APROXIMAÇÃO DE UMA AERONAVE MILITAR QUE TARDAVA EM ATERRAR!
ENTRETANTO A CÉLULA DE UM ENORME “CUMULO NIMBUS” VINDO DE SUL, DO LADO DO ZAMBEZE APROXIMAVA-SE DA CABECEIRA DA PISTA DONDE IRÍAMOS DESCOLAR COM DESTINO A VILA COUTINHO.
O COMANDANTE AUGUSTO IMPACIENTAVA-SE E COMENTAVA PARA QUE EU O OUVISSE:
-       DAQUI A POUCO JÁ NÃO CONSEGUIMOS  DESCOLAR ...
QUEM NÃO O CONHECESSE BEM, E ERA ESSE AINDA O MEU CASO, SENTIR-SE-IA DESCONFORTADO PELA APARENTE IMPACIÊNCIA REVELADA PELOS COMENTÁRIOS QUE IA PRONUNCIANDO ATÉ QUE FINALMENTE FOMOS AUTORIZADOS A PROSSEGUIR PARA A POSIÇÃO DE DESCOLAGEM.
-       PRIMAVERA FAÇA UM TAXI RÁPIDO PARA VER SE AINDA CONSEGUIMOS DESCOLAR.
-       COMANDANTE – ACRESCENTEI – AINDA NÃO ME SINTO SEGURO PARA CORRER PELA PISTA NUM TAXI TÃO RÁPIDO COMO O COMANDANTE QUER.
-       OK – ACRESCENTOU – TENHO O AVIÃO!

E COM UMA FORTE MOTORADA PERCORREU A DISTÂNCIA DESDE A PLACA DE ESTACIONAMENTO ATÉ À CABECEIRA SUL, ALINHOU O DAKOTA E BLOQUEANDO A RODA DE CAUDA, DEU-ME UMA PALMADA NAS COSTAS E ACRESCENTOU:
-       O AVIÃO É SEU, DESCOLE ...

PASSADOS MUITOS ANOS DEPOIS DESTES DOIS PEQUENOS EPISÓDIOS, O COMANDANTE AUGUSTO RODRIGUES VEIO TER COMIGO NA APPLA E ENTREGANDO-ME UM PEQUENO ESPÓLIO QUE CONSEGUIRA OBTER RELATIVO A OUTRO NOSSO COLEGA (COM QUEM JÁ NÃO VOEI), O COMANDANTE MANUEL MARIA ROCHA, E PEDIU-ME, COM UM AR MUITO SÉRIO, QUE ESCREVESSE ALGO SOBRE ESTE GRANDE PIONEIRO NÃO SÓ DA AVIAÇÃO MOÇAMBICANA, COMO TAMBÉM DA PORTUGUESA.

ESTE ESPÓLIO FICOU ADORMECIDO NUMA GAVETA DA MINHA SECRETÁRIA DURANTE ESTES ANOS TODOS.

ANTEONTEM, POR INCRÍVEL COINCIDÊNCIA, DISPUS-ME A INICIAR A MEMÓRIA 21ª DAS “MEMÓRIAS PARA UM BUSH PILOT” E COMECEI A COLIGIR OS ELEMENTOS POSSÍVEIS SOBRE A VIDA DAQUELE NOSSO COLEGA E QUE O COMANDANTE AUGUSTO RODRIGUES ME PEDIRA HAVIA ANOS QUE O ESCREVESSE.

E FOI ENTÃO QUE FUI INTERROMPIDO NO MEU TRABALHO PELO DESPERTAR DO MEU TELEMÓVEL QUE ME ANUNCIAVA A TRISTE NOTÍCIA DO FALECIMENTO DAQUELE AMIGO A QUEM EU PROMETERA ALGO QUE SÓ AGORA COMECEI A CUMPRIR LAMENTANDO QUE ELE JÁ O NÃO POSSA LER.

JOAQUIM PRIMAVERA

VILA DE PAREDE, 3 DE SETEMBRO DE 2014



29/08/14

876 - 78º Aniversário da DETA

78º Aniversário da DETA - Divisão de Exploração de Transportes Aéreos de Moçambique 26 de Agosto de 1936 / 2014

A 26 de Agosto de 1936 nasceu a Divisão de Exploração de Transportes Aéreos de Moçambique (DETA), que funcionou como uma divisão da Administração da Direcção dos Serviços de Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique.
Foi a DETA criada pelo
Diploma Legislativo n.º 521, publicada no Boletim Oficial n.º 34 - 1ª série da Colónia de Moçambique, com a assinatura do Governador-geral interino em exercício José Nunes de Oliveira, na data acima mencionada (26 de Agosto de 1936).

01/08/14

874 - CR-AKN e CR-AQM, dos TAC - Transportes Aéreos Comerciais





Nangololo - 09/04/1970

Foto de João Maria Ribeiro Silva


Foto: TAC - Transportes Aéreos Comerciais
Rockwell 500S Shrike Commander "CR-AQM"
Foto de Abel Santos
Rockwell 500S Shrike Commander "CR-AQM"
  Foto de Abel Santos

23/07/14

873 - CADELCO - Cabo Delgado Comercial

CR-AJA. Foto encontrada aqui
 
CR-AMO. Foto de Gilberto Pereira


03/07/14

872 - Homenagem póstuma do Cte. Joaquim Primavera, ao Cte. António Luís Figueiredo



Cte Joaquim Primavera, na altura co-piloto, o mecânico de voo Castro, a assistente Adelaide Lobato e Cte Figueiredo. Atrás o avião DC3 da DETA com matricula CR-AHB.

Comandante ANTÓNIO LUÍS FIGUEIREDO
Faleceu sábado dia 28 de Junho o meu Amigo e colega de voo da DETA, o Comandante ANTÓNIO LUÍS FIGUEIREDO, “FIGAS” como era por nós conhecido.

Nascido em Lourenço Marques em 1926, iria completar a 30 de Outubro os 88 anos de idade.
Depois de se perder um companheiro, muito se diz e muito se fala sobre o que ele foi, sobre o que ele fez, ou não fez, elogiando os acontecimentos  de que então nos recordamos!
Sem querer seguir esse caminho demasiado sentimental vou apenas reviver numa curta homenagem, quatro pequenas situações das muitas que partilhamos durante aqueles maravilhosos tempos em que voei na DETA como copiloto de um profissional que se iniciou na aviação como mecânico de manutenção de aviões, passou para o voo como mecânico radiotelegrafista e finalmente como piloto de aviões, função que exerceu até ao ano em que completou sessenta e quatro anos de idade.

Em meados de 1967 a cantora de fados Maria Pereira, a convite do Movimento Nacional Feminino, fez uma digressão por Moçambique cantando para os militares em missão de serviço nos principais aquartelamentos.
Fomos destacados, o Comandante Figueiredo, eu, o mecânico de voo Castro e a assistente Adelaide Lobato para um fretamento que transportaria um conjunto artístico liderado pelo conhecido empresário Covões das tintas Robialac e sua mulher a fadista Maria Pereira acompanhados pelo pessoal de apoio e respectivo material para a realização dos espectáculos.
1 - A primeira escala foi a pista de Metangula no magnífico Lago Niassa onde pela primeira vez aterrou um DC3, o CR-AHB da DETA numa manobra perfeita atestada por uma multidão de marinheiros que vieram esperar a cantora.
Nas instalações da base naval de Metangula fomos “obrigados” pela primeira vez a assistir ao espectáculo da Maria Pereira.
2 – A segunda escala foi no Lumbo, onde chegamos com uma hora de atraso por se ter verificado à partida de Metangula uma avaria no motor do lado direito eficientemente reparada pelo nosso mecânico de voo, o 3º membro da tripulação do cockpit.
Mesmo assim a população do Lumbo esperava-nos para poderem assistir ao espectáculo prometido pelo representante da “Robialac”.
Aí o “Figas” desculpou-se não poder estar presente, com a necessidade de proceder a uma cuidada verificação do motor direito. É claro que nós, seguindo o exemplo do Comandante escusámo-nos a assistir ao espectáculo que víramos na véspera e que, diga-se em abono da verdade, era muito enfadonho!
3 – A terceira e a última escala teve por cenário a encantadora povoação de Vila Junqueiro onde brilhava a simpatia do casal Peixoto, a Dona Lúcia e o Comandante Faria, mais conhecido pelo “Faria do Gurué”.
Também a pista do Gurué recebeu pela primeira vez a visita de um DC3.
E tão grande era a nossa preocupação numa aproximação curta a esta pista de pequenas dimensões que, como dizia D. Lúcia entusiasmada com a presença daquela aeronave um ”pouco maior” do que o pequeno AZTEC do seu Faria, repetia - o DAKOTA, sendo muito maior que o AZTEC, aterrou num espaço mais curto do que o Faria.
É claro que a presença do casal Peixoto serviu de pretexto para mais uma ausência nossa no espectáculo da fadista Maria Pereira!
Finalmente esta pequena homenagem ao Comandante Figueiredo ficará completa com o registo que se segue e que revela bem o espírito de missão que nos animava a todos nós tripulantes da DETA nos momentos mais difíceis da vida das populações, como o que aconteceu naquela tarde de verão de 1968:
- Havíamos descolado do aeródromo da Beira pelas oito horas da manhã na carreira habitual com destino a Porto Amélia, escalando Quelimane, Tete, Vila Coutinho, Nova Freixo, Vila Cabral e Nampula.
Já perto de Porto Amélia foi-nos transmitido um pedido do hospital da cidade para a evacuação de doze militares vítimas de um acidente de viação e que necessitavam de assistência especializada que só lhes poderia ser administrada no hospital de Nampula.
A nossa chegada estava prevista para cerca das dezassete e trinta.
O comandante Figueiredo sabendo de antemão que nenhum dos tripulantes se recusaria a efectuar esta missão, teve contudo o cuidado de esclarecer a tripulação para o facto de que a sua aceitação implicaria um acréscimo de aproximadamente três horas de voo, não contando com o tempo de trabalho imprevisível naquelas circunstâncias.
Antecipando a operação de evacuação pedimos que fossem preparados os feridos para o embarque à nossa chegada a Porto Amélia o que infelizmente não resultou dado que se processou de modo extremamente lento devido ao estado dos acidentados.
Só conseguimos descolar com destino a Nampula pelas vinte horas. Depois de desembarcados os nossos passageiros, iniciamos o regresso acabando por aterrar finalmente em Porto Amélia cerca das três horas da madrugada após vinte horas de trabalho em que fizemos nove aterragens!

Recordo-me que quando nos dirigíamos para o hotel disseste na tua maneira de falar:
- Obrigado pessoal pela vossa dedicada colaboração. Muito obrigado!

“Hambanine” “Figas”. Adeus!

Joaquim Primavera

Vila de Parede 01/07/2014

13/05/14

871 - MEMÓRIAS PARA UM “BUSH PILOT”- MEMÓRIA VIGÉSIMA


Torre do Valle do lado esquerdo, com Carlos Calçada Bastos e Gabriel Zoio junto ao Puss Moth CR – MAG , baptizado de GAZAIII dias antes do início da sua viagem em que ligaria a vila do CHAI CHAI  em Moçambique, à cidade de Lisboa onde aterraria na pista de Alverca.

 


Versão reconstruída de uma aeronave de  matrícula  britânica de um  Puss Moth DH.8OA,  idêntico ao CR – MAG de Torre do Valle.


MEMÓRIA 20ª

DEIXANDO A IMAGINAÇÃO VOAR DESDE A VILA DO CHAI-CHAI EM MOÇAMBIQUE  ATÉ À CIDADE DE LISBOA EM PORTUGAL!

Naquele dia de Setembro do ano de 1937, Eugénio Matsinhe conduzia pela mão o pequenito Quinzinho até à mercearia que estava ali mesmo na esquina perto de casa para comprar meio quilo de batatas e uma medida de azeite que faltavam para a sua patroa preparar almoço. Eugénio não levava consigo qualquer quantia em dinheiro, porque como de costume as despesas com as compras eram apontadas no “livro de crédito” dos seus patrões e seriam depois liquidadas quando chegasse o fim do mês.
Foi então que, surgindo dos lados do campo de aviação da carreira de tiro uns três ou quatro pequenos aviões que começaram a evoluir em largos círculos por cima das campas do cemitério de S. Francisco Xavier que se desenvolvia na outra esquina ali mesmo em frente à mercearia, no cruzamento das avenidas Manuel de Arriaga e Pinheiro Chagas, quais gaivotas olhando assustadas para a companheira que jazia no solo ferida de morte, incapaz de voltar a voar.

Passaram-se entretanto vinte e oito anos - estávamos agora em Setembro de 1965 ano em que iniciei a profissão de piloto aviador nos Táxis Aéreos da Beira.
Na manhã do dia 16 de Setembro descolei do aeródromo da Beira pelas seis horas aproveitando o fresquinho da manhã que despontara havia ainda pouco tempo, com destino a Lourenço Marques  numa viagem que se afigurava decerto longa, transportando um cliente muito especial da nossa empresa, o senhor Acácio Augusto Pires.
Este passageiro responsável pela WENELA para a área do Sul do Save, deslocava-se com uma regular frequência entre aquelas duas cidades utilizando os nossos aviões já que lhe permitiam passar por Inhambane e por
João Belo mais conhecido pelo Chai-Chai visitando as delegações da sua empresa naquelas localidades.
Para esclarecimento do leitor, a WENELA ou Witwatersrand Native Labour Association era uma empresa criada para recrutamento de trabalhadores negros, migrantes dos territórios vizinhos, para trabalharem nas minas de ouro da vizinha África do Sul.
Em Moçambique a propaganda desenvolvida pelos agentes daquela empresa, os "recrutadores", foi de tal modo efectiva, que os homens da parte Sul do território, só seriam aceites para casamento depois de terem cumprido pelo menos um contrato de doze meses nas "minas do John" como eram conhecidas as minas de ouro junto à cidade de "Johannesburg".
Esta força de trabalhadores conhecidos por "magaíças" constituíam uma  importante fonte de receita para o governo central português, já que a WENELA, ou melhor o governo sul africano pagava em ouro, ao governo de Moçambique, uma taxa por cada contracto de trabalho efectuado. O ouro era depois encaminhado para os cofres do Banco de Portugal em Lisboa.

  - Primavera - perguntou a determinada altura o meu passageiro numa tentativa bem sucedida de quebrar o silêncio que o início da viagem instalara na cabina do nosso pequeno avião - sabe que há precisamente vinte e oito anos foi sepultado em Lourenço Marques uma grande amigo meu, nessa altura meu chefe, um pioneiro da aviação moçambicana, Armando de Vilhena da Torre do Valle? - e continuava cada vez mais entusiasmado - esse meu grande amigo morreu trucidado por um elefante solitário, que havia ferido durante uma caçada aos elefantes.

E depois de um silêncio em que decerto pensava nesse trágico episódio, continuou:
   - Pois é verdade. Aquela fatídica caçada foi organizada a pedido do seu amigo, o administrador do Chibuto, com a finalidade de defender as culturas indígenas das devastações provocadas pelos elefantes que, na época das secas, se deslocavam mais para Sul à procura de alimentos que escasseavam no seu território habitual.
  Foi sepultado no dia 17 de Setembro no cemitério S. Francisco Xavier em Lourenço Marques, num dia luminoso em que os aviões do Aeroclube de Moçambique voando em largos círculos lançaram coroas de flores que cobriram a campa onde repousaria para sempre.

Curiosamente veio-me à memória aquela imagem que me perseguiu continuamente durante a minha adolescência e que, de tão intensa, nunca mais me abandonou até à idade adulta. Foi precisamente naquela manhã do dia 17 de Setembro de 1937, como escrevi no início desta MEMÓRIA, quando pela mão do Eugénio assisti deslumbrado às evoluções daqueles pequenos aviões que traçavam no céu largas voltas sobre as campas do cemitério de S. Francisco Xavier, uma das quais guardaria o corpo de  alguém cujo nome só agora conhecia, Armando Torre do Valle e de quem iria conhecer uma extraordinária aventura contada de uma maneira tão empolgada pelo meu passageiro Acácio Pires.

O Armando Torre do Valle era um homem de elevada estatura física, senhor de um carácter vigoroso marcado num face de contornos bem vincados.
Possuidor de um elegante porte, detentor de rara cultura, infundia respeito e consideração capazes de conquistar verdadeiras amizades.
Homem habituado às imensas planícies do Sul do Save, teve uma existência cheia de aventuras a que agora iria juntar mais uma, cuja grandeza por vezes o assustava mas que depressa ultrapassava com aquela paixão com que se lançava em todos os seus projectos.
Torre do Valle vivia com  apaixonada intensidade as novas aventuras que os pilotos experimentavam nos anos vinte e conhecia-as todas nos seus pormenores:
- Em 1922 Gago Coutinho e Sacadura Cabral atravessam o Atlântico Sul até ao Brasil!
- Em 1927 Sarmento Beires, aviador militar, voa de Alverca ao Rio de Janeiro num hidroavião bimotor auxiliado por uma tripulação constituída por um copiloto e um mecânico!
- Em 1927 Charles Lindbergh voa de Nova Iorque a Paris partindo de Nova Iorque nos

EUA, em direcção a Paris, França, em 20 de Maio de 1927, tendo pousado na capital francesa no dia seguinte.!
- Em 1928 Carlos Bleck inicia um voo até à Índia, mas uma panne no motor obriga-o a desistir já a meio do seu percurso no deserto da Arábia
- Também em 1928 Charles Kingsford Smith cruza o Oceano Pacífico!
- E ainda nesse ano, o Capitão Paes Ramos e o Tenente João Maria Esteves  realizam um “raid” aéreo ligando Portugal a Moçambique, utilizando duas aeronaves “Vickers” pertencentes à esquadrilha de aviação da República instalada na Amadora!
Torre do Valle recolhia todas as notícias daqueles arrojados pilotos que cruzavam os ares em inéditas façanhas.

Nascido a três de Maio de 1888 na cidade do Porto, veio para Moçambique em 1895 com apenas sete anos de idade e aqui permanecera até então. Aproveitando a licença de seis meses que a WENELA, como as demais empresas da Colónia, concedia aos seus funcionários e que normalmente eram gozadas em Portugal interroga-se:
- Porque não fazer essa viagem de avião? De certo que não ficaria mais   cara que uma viagem de barco já que o orçamento previsto de duzentas libras não excedia o preço daquela viagem.
E com este propósito, Torre do Valle, senhor de um invulgar espírito aventureiro, concebe o projecto de uma viagem aérea ligando a vila de Chai- Chai em Moçambique à cidade de Lisboa em Portugal, aprazando antecipadamente a data do seu início para o dia primeiro de Abril de 1933, de modo a poder festejar o seu quadragésimo quinto aniversário junto da sua mulher, Ema de Almeida Campos e dos filhos que residiam em Cascais.

Torre do Valle vivia entusiasmado a expectativa da aventura. Para a sua concretização necessitaria da companhia de alguém (que ele bem conhecia), um excelente mecânico de motores, o Amadeu de Araújo, aluno piloto da sua escola de pilotagem que decidira fixar residência em Portugal.
 - Amadeu. Em vez de viajares para a metrópole num qualquer paquete refastelado numa cadeira de convés de perna estendida sem experimentares  o estímulo que só um voo proporciona, porque não partilhas comigo esta espantosa viagem, onde além de me ofereceres o teu competente apoio de mecânica, irás com toda a certeza, deslumbrar-te com estranhas e belas paisagens que algumas vez contemplaste e talvez ainda, viver aventuras que só uma vez na tua vida terás a oportunidade de desfrutar sem acréscimo ao preço que irás pagar pela passagem de barco?

Os dias que antecederam aquele primeiro dia do mês de Abril foram de uma louca roda-viva com idas e vindas entre o Chai-Chai e Lourenço Marques recolhendo material necessário às modificações que permitissem ao pequeno "GAZA III" cumprir a missão a que ele se propusera: - voar desde Moçambique até Portugal, sem qualquer apoio das autoridades da colónia. Seria o primeiro “raid” desportivo realizado por um piloto civil que possuía na altura uma experiência de apenas 350 horas de tempo de voo!

O “GAZA III” que ele oferecera a si próprio como prenda do Natal de 1931, era uma pequena aeronave (um DeHavilland DH.80A Puss Moth de 110 cavalos de potência) que teve de ser sujeito a importantes transformações para poder cumprir o plano que Torre do Valle traçara para esta viagem:
- Na parte da frente do estreito habitáculo o piloto  instalado num assento forrado de napa de cor bege, tinha acesso aos comandos da aeronave e aos instrumentos básicos do motor e da navegação. Atrás dele, num banco desalinhado do seu, iria sentar-se o Amadeu que poderia estender as pernas beneficiando do exíguo espaço  que o desalinhamento das cadeiras lhe oferecia.
- Na parte traseira da cabina, o espaço destinado a um possível terceiro passageiro, foi transformado num pequeno compartimento de carga que iria transportar dois pneus, algumas peças sobressalentes e as ferramentas indispensáveis a quaisquer prováveis reparações. Foi aí que seriam colocadas também as limitadas bagagens com os pertences individuais dos nossos aventureiros.
- O sistema de combustível sofreu talvez a maior modificação do avião  com o acréscimo de um tanque suplementar que iria permitir através de um extenso ramal de alimentação, aumentar a autonomia da aeronave até às nove horas de voo mais três que o normal neste modelo.
Todo este trabalho de transformação foi realizado por Torre do Valle e pelo Amadeu, com a indispensável ajuda do grande amigo o Manuel Maria, brilhante mecânico de motores no Chai-Chai. Este jovem havia sido o primeiro aluno brevetado na sua escola de pilotagem no Aeroclube de Moçambique e que Torre do Valle elogiava para quem o quisesse escutar:
         - Este miúdo ainda vai ser um grande piloto.
Fixem desde já o nome do futuro Comandante Manuel Maria Rocha porque muito se há-de ouvir falar dele.
Prevendo longos percursos com chegadas tardias aos aeródromos já que não poderiam dispor de informações meteorológicas necessárias ao voo, iniciam intensos treinos de voo com aterragens nocturnas na pista do aeroclube do Chai-Chai, com o auxílio de archotes e candeeiros a petróleo.  

Logo pela manhã daquele primeiro dia do mês de Abril, o dia “D” marcado  para o início da viagem, mal o Sol despontara no horizonte, Torre do Valle,  o Manuel Maria e o seu companheiro da grande aventura, o Amadeu, concluíam as últimas verificações ao GAZA III que em breve iria descolar para uma viagem de cerca de 12.000 quilómetros.
Estas verificações do GAZA III iriam ser rigorosamente repetidas durante todas as etapas após a aterragem e antes de cada descolagem e executadas por Torre do Valle e Amadeu Araújo.
Na véspera haviam verificado minuciosamente o plano de voo que fora pensado tendo em atenção as informações disponibilizadas pelos contactos que Torre do Valle mantinha com as diversas delegações da WENELA nos países vizinhos de Moçambique situados na costa oriental de África.
Beneficiando ainda do perfeito domínio da língua inglesa e do contacto com diversos sectores da colónia britânica da África do Sul onde ele obtivera a sua licença de voo, decidiu-se por uma rota que percorreria a costa de leste de África através do Niassalândia do Quénia e do Sudão Anglo Egípcio até ao Egipto, países onde existia uma rede administrativa britânica de serviços de apoio.
Esta escolha tornava-se ainda mais recomendável se observarmos com atenção o mapa de costa oriental de África: - a rota escolhida desenvolve-se por um enorme território que contém um longo vale pertencente ao sistema geológico do “Grande Rift Oriental” que se estende ao longo da costa leste de África desde a Etiópia até à região central de Moçambique por cerca de 6.000 quilómetros.
Esta enorme fenda tectónica inclui os grandes lagos africanos como o Lago Shire, o Lago Niassa, o Lago Tanganica, o Lago Alberto e o enorme Lago Victória onde se situa a nascente do Nilo Branco que corre para Norte até ao Mar Mediterrâneo percorrendo uma distância de 6650 quilómetros.
Esta vasta rede de lagos que se prolongam pelo Nilo Branco até ao Cairo constituíam um importante apoio à navegação desta expedição que seria efectuada “à vista do terreno”, facilitando a execução do plano de voo preparado por Torre do Valle com o suporte de Manuel Maria Rocha.
Recorde-se que no GAZA III não existia qualquer instrumento de comunicação via rádio com qualquer estação terrestre o que tornava este voo ainda mais complicado pelo desconhecimento das condições meteorológicas  que iriam encontrar em toda a rota.
E o plano de voo havia sido assim concebido utilizando as exíguas ajudas existentes:
- Após a descolagem do Chai-Chai aterrariam no Chinde ainda em Moçambique. Dali voariam para Blantyre no Niassalândia onde pernoitariam.
No dia dois de Abril levantariam voo com destino a Nairobi, no Quénia. Neste trajecto, depois de escalarem Mpika, pernoitariam em Mbeya no dia três e em Dodoma no dia quatro.
De Nairobi seguiriam no dia cinco para Juba na margem esquerda do Nilo Branco situada no então Sudão Anglo Egípcio onde pernoitariam.
Voariam depois para Malakal na etapa seguinte antes de escalarem Cartum.
De Cartum voariam para Wadi Halfa onde chegariam no primeiro dia de Maio para mais uma pernoita antes de deixarem o Sudão Anglo Egípcio em direcção à cidade do Cairo no Egipto.
Do Cairo seguiriam para Bengazi na Líbia e Gabés na Tunísia pernoitando em cada uma destas cidades.
Finalmente depois de Gabés, a próxima escala seria Fez em Marrocos onde chegariam no dia 13 de Maio na última pernoita antes de descolarem para a derradeira etapa da sua viagem em direcção a Lisboa com passagem pela cidade de Tânger.
A chegada no dia 14 de Maio previa a aterragem na pista de Alverca por volta da hora de almoço.
Cumpririam assim um total de aproximadamente setenta horas de voo durante os onze dias de viagem.

A divulgação deste “raid” aéreo merecera uma certa parcimónia por decisão de Torre do Valle homem de acção e de poucas palavras pouco propenso às vulgarizações da publicidade jornalística.
Não obstante estes cuidados, a notícia foi divulgada nas últimas edições dos diários “Notícias” e “Lourenço Marques Guardian” e assim, pelas seis horas da manhã daquele primeiro dia do mês de Abril lá estavam todos os amigos, como o Calçada Bastos um dos mais entusiastas apoiantes da ideia desta viagem, o seu chefe e companheiro das caçadas Alberto Abrantes e mais aqueles que perceberam que era chegada a hora do início daquela aventura.
Pouco depois o GAZA III começa lentamente a deixar o local de estacionamento junto ao hangar do aeroclube do Chai-Chai e inicia a corrida para a descolagem acelerando pelo campo de relva coberta por uma fina camada de orvalho da noite anterior.
Lentamente o roncar metálico do motor vai transmitindo velocidade à pequena aeronave que se eleva finalmente no ar por entre os aplausos e as exclamações  do espectadores deste acontecimento.
Descolara para Sul e após uma volta pela direita passa em voo rasante sobre o campo de aviação balançando as asas numa saudação de despedida e de agradecimento pela presença estimulante daqueles que vieram desejar-lhes boa viagem.
Em breve o avião tomando altura deixou de ser avistado, ocultando-se entre os “cúmulos do bom tempo” que auspiciavam o sucesso daquela aventura que agora se iniciara.

A atmosfera fresca da manhã proporcionava um voo calmo que o GAZA III parecia partilhar com os nossos pilotos sulcando prazenteiro o ar, por entre o ruído do escape do motor que, como comentava Torre do Valle para o Amadeu bem instalado no assento posterior, trabalhava com a precisão de um bom relógio Suíço!
Deixara já para trás o Rio Limpopo  que abraça num gesto afectuoso a Vila do Chai-Chai e percorria agora a costa de Moçambique que lhes era bem, familiar sobrevoando o rosário de lagoas que se prolongam pela beira-mar, junto às povoações de Chidenguele, Quissico e Inharrime.
À medida que se aproximava da linha da costa na rota que conduziria o GAZA III até ao Chinde, a cor verde esmeralda das águas do oceano Índico anunciava a aproximação do fundo de areia e coral donde emergiam as cinco ilhas do arquipélago do Bazaruto conhecido por “Pérola do Oceano  Índico”. 

Mal se começa a definir no horizonte o grande delta do rio Zambeze com os quatro braços em forma de um enorme leque e já sobrevoam a ilha de Pambane donde se eleva a Vila do Chinde cuja população acolheria surpreendida os nossos ousados aviadores na sua primeira aterragem ao fim de quase cinco horas de voo após a descolagem do Chai-Chai.
A paragem foi de curta duração mas o suficiente para esticar as pernas e reabastecer os tanques com  gasolina de automóvel.
Cerca das treze horas descolaram finalmente do Chinde sobrevoando o rio Zambeze até à confluência com o rio Chire no Caia cujo leito sobe em direcção às terras altas onde mora a sua nascente.
As terras montanhosas que envolvem a cidade de Blantyre já se fizeram anunciar quando o GAZA III passou junto ao maciço de Milange cujo pico mais alto  se projecta até os três mil metros obrigando-os a voar a uma altura de treze mil pés.
À medida que se aproximavam da cidade, a topografia do terreno envolvente apresentava-se aos olhos dos nossos viajantes de uma forma irregular com elevações que variavam entre os setecentos e os mil e seiscentos metros de altitude recordando-lhes que a cidade se encontra situada no bordo oriental do ramo sul do “Grande Rift Oriental”.
Na manhã do dia 2 de Abril, depois de uma noite reconfortante, descolaram de manhã cedo com destino a Mbeya aproveitando a frescura da noite que se prolongaria por mais umas horas
Na direcção de Mbeya, ergue-se um conjunto de dez ou mais crateras de antigos vulcões adormecidos. De modo a evitar o seu sobrevoo e principalmente  da enorme montanha de Rungwe que se destaca de entre as outras pelos seus quase três mil metros de altitude, Torre do Valle havia traçado  um desvio para ocidente com escala em Mpika.
À medida que se aproximavam de Mbeya começaram a observar à distância uma descomunal célula de tempestade formada por cúmulos-nimbos que se faziam anunciar por relâmpagos que rasgavam com uma frequência impressionante as nuvens cinzentas que se projectavam no horizonte num cenário que se previa complicado com chuva torrencial e fortes ventos em todas as direcções.
E foi o que aconteceu. A aproximação ao campo de aterragem constituiu mais uma prova da perícia de Torre do Valle que conseguiu uma aterragem segura da sua frágil aeronave sacudida por fortes rajadas de vento no meio de forte aguaceiro que encharcava o terreno onde ela finalmente se imobilizou.
A noite foi passada numa modesta pensão de um comerciante indiano onde o telhado de zinco amplificava o ruído do granizo que caía acompanhando as fortes trovoadas que se mantiveram em Mbeya por algumas horas e que lhe fizeram lembrar a conhecida tempestade da ópera de Wagner, “o Navio Fantasma”.
Somente naquela manhã, respirando uma atmosfera refrescante que a forte tempestade da tarde anterior havia limpo, conseguiram ver como as colinas das altas montanhas que rodeavam a povoação se vestiam de urzes e fetos num maravilhoso cenário pintado com fortes tons de verde, amarelo e lilás.
Depois da tempestade vem a bonança e seguramente assim aconteceu permitindo ao GAZA III descolar com destino a Dodoma, a próxima escala antes de Nairobi, numa atmosfera que lhes permitia uma visibilidade quase ilimitada.
Torre do Valle, num pequeno briefing na noite após a chegada a Dodoma, chamara a atenção a Amadeu para as maravilhas naturais que iriam contemplar a caminho de Nairobi, cidade erguida numa região de altas montanhas, ela mesmo estabelecida a cerca de mil e setecentos metros de altitude.
Haviam já voado cerca de um terço da viagem numa altitude confortável de catorze mil pés, cerca de quatro mil e duzentos metros, quando começaram a avistar à direita da rota o imponente monte Kilimanjaro cujas neves eternas bem lá no alto reflectiam os raios do Sol já muito perto do Zénite dominando com os seus cerca de cinco mil e novecentos metros as crateras de outros vulcões menores como o Meru que protegia a tímida povoação de Arusha dos ventos quentes do Norte.
Sobrevoavam já o lago Manyara e em breve surgiu a gigantesca cratera de outro vulcão extinto que Torre do Valle anunciou a Amadeu, gritando para se fazer ouvir por entre o ruído do motor:
-       Ngorongoro. A verdadeira “Arca de Noé”. O maior Jardim Zoológico
criado pela Natureza!
E apontava na direcção de uma enorme caldeira com uns dezanove quilómetros de diâmetro que se formara na sequencia do desmoronamento  de um primitivo vulcão. Disposta em forma de um enorme anfiteatro, achava-se coberta por uma vegetação exuberante onde habitam durante toda a sua vida, diferentes espécies animais como elefantes, rinocerontes, leões, chitas, zebras, gnus e avestruzes.

Caçador de caça grossa, profundo apaixonado pela vida ao ar livre, Torre do Valle não resiste a ver de mais perto tamanha riqueza animal e desce dos catorze mil pés para os quatro mil pés na direcção do Lago Magadi, um lago de água salgada que descortina no meio da cratera e que lhes proporciona a mais espectacular visão de um imenso bando de vistosos flamingos de flamejante cor-de-rosa.

Nairobi acolheu confortavelmente os nossos aviadores que se instalaram no Hotel Stanley em cujas instalações se recompuseram do longo dia em que haviam efectuado sete horas de voo repartidas por duas etapas.
De acordo com o plano de voo concebido à saída do Chai Chai, Torre do Valle de modo a evitar a sucessão de vulcões que se prolongam pela falha do Quénia  até Asmara na Etiópia, ruma directo a Kisumu pequeno porto na margem oriental do grande Lago Vitória de modo a  alcançar rapidamente a nascente do Nilo Branco e seguir o seu curso até à cidade de Juba, no Sudão Anglo Egípcio onde pernoitariam depois de mais de seis horas voadas.
Juba, uma pequena povoação na margem esquerda do Nilo perto do Equador, acolheu os nossos aventureiros numa atmosfera abafada e húmida com uma temperatura escaldante não obstante terem chegado já perto do fim do dia!
Valeu-lhes a afabilidade de dois comerciantes de origem grega que se haviam estabelecido em Juba nos princípios dos anos vinte.
Com a simpatia dos seus anfitriões e umas bebidas frescas que acompanharam uma farta refeição de carne de caça abatida naquela manhã, os nossos dois aviadores conseguiram recompor-se fisicamente para a próxima etapa que os levaria até Malakal.
Esta seria decerto uma tarefa que se anunciava bastante arriscada já que tanto Juba como Malakal limitavam aproximadamente a Sul e a Norte uma extensa área conhecida pelo Sudd.
O Sudd é uma imensa região de planície pantanosa do Sudão formada pelas águas do Rio Nilo e a sua área abrange uma superfície variável entre os trinta mil quilómetros quadrados e os cento e trinta de acordo com a estação chuvosa. É certamente a maior área húmida do mundo cortada por imensos canais frequentados por crocodilos e hipopótamos, onde cresce o luxuriante papiro e o jacinto de água num emaranhado de ilhas flutuantes que dificultam drenagem das águas após cada  cheia cíclica do rio Nilo.
O Sudd é por isso considerado quase intransponível quer por terra quer por embarcações o que aconselharia, como alertavam os seus anfitriões, que o voo para Malakal não se realizasse numa rota directa mas utilizando em alternativa um desvio, que embora mais longo seria mais seguro, sobrevoando a estrada que na margem direita do Nilo ligava as duas povoações.
Acrescente-se que numa medida complementar as autoridades de Juba e Malakal informavam-se reciprocamente por via telegráfica das partidas e chegadas das aeronaves voando entre estas duas localidades.

Torre do Valle confiante no funcionamento impecável do motor do seu GAZA III que se comportava “como um verdadeiro relógio suíço”, optou pela rota directa e após um voo de quatro horas em que percorreu os quinhentos e cinquenta quilómetros aterrou em Malakal. Nesta rota poupou cerca de cem quilómetros em relação à alternativa aconselhada pelos seus anfitriões de Juba.
Se de Juba lhes ficara a ideia de que haviam sentido muito calor Malakal devia estar muito perto do “inferno” já que o ar quente se tornava irrespirável numa temperatura constante ao longo das vinte e quatro horas do dia de cerca de quarenta graus centígrados. Estavam decerto no lugar mais quente do Sudão, comentava Torre do Valle para o seu companheiro à medida que se dirigiam para os três habitantes que acorreram a recebe-los no pequeno campo de  aviação.
Depois de uma noite mal dormida apressaram os preparativos da descolagem com destino a Cartum.
Posicionavam já o GAZA III voltado de frente para a direcção donde soprava o vento sempre quente, acenando um adeus de despedida para os três anfitriães que os receberam na véspera.
E foi então que sucedeu o insólito incidente que veio interromper esta viagem que decorria numa normalidade ideal.
Acelerando de forma contínua para a descolagem, o motor ia aumentando as rotações para o valor máximo necessário a atingir para a descolagem, quando se ouviu um enorme estoiro acompanhado de forte vibração que não lhe deixava sequer distinguir os instrumentos do motor que parecia estar prestes a desintegrar-se.
O avião mal se elevara no ar e as rodas do trem ainda estavam a poucos centímetros do chão quando Torre do Valle numa decisão rápida abortou a descolagem cortando de imediato os magnetos para imobilizar o motor.
Estacionado o GAZA III, ao abrir o “capot” do motor depressa se apercebeu de um enorme buraco no “carter” por onde saía a biela de um cilindro.
Desanimado o Amadeu, encostado ao montante da asa esquerda murmurava incrédulo:
-       Se isto tivesse acontecido ontem depois de deixarmos Juba e já sobre o Sudd ... e se tivéssemos sobrevivido ao possível acidente, de certo nunca seríamos encontrados numa área de quinhentos quilómetros de comprimento por setecentos e cinquenta de largura.
Ouvindo-o, e recordando o alvitre dos seus anfitriões gregos da véspera, Torre do Valle acrescentou:
-       É muito certo o provérbio antigo que diz que “a conselho de amigo, não feches o postigo”... Tivemos muita sorte!  Mas quem iria supor que um motor que havia funcionado sempre tão bem havia de sofrer uma “panne” tão grave?

Homem de decisões rápidas, passados os momentos de natural desânimo Torre do Valle depressa controla a situação começando por se inteirar da possibilidade do transporte da aeronave até Cartum já que em Malakal não havia quaisquer meios para a reparação do motor.
Felizmente, informaram-no da existência de um barco que fazia a ligação fluvial a Cartum com uma frequência quinzenal e que por sorte deveria chegar dentro de dois dias a Malakal.
Superado o desânimo inicial, Torre do Valle passou a programar tranquilamente todas as acções para obviar este contratempo. De imediato combinou com o seu companheiro o Amadeu prepararem o GAZA III para o embarque no transporte fluvial removendo a fixação anterior das asas permitindo articulá-las para a parte de trás de modo a ficarem recolhidas no comprimento da fuselagem como as asas de uma gaivota em terra.
E no meio desta actividade energicamente desenvolvida numa reacção aquele revés, eis que surge uma ajuda inesperada com a passagem de um aviador solitário que num pequeno Gipsy Moth de dois lugares escalara Malakal e lhe ofereceu uma boleia até Cartum ponto de escala da sua viagem.
O Amadeu ficaria em Malakal orientando o embarque do GAZA III e seguiria dali a dois dias com o avião convenientemente arrumado no convés do barco numa viagem pelo Nilo que duraria cinco dias.
Torre do Valle por seu lado, aproveitando a ajuda imprevista, acomodado no banco dianteiro, encolhido o mais possível no assento para se proteger da deslocação do vento, acabou por adormecer vencido pelas emoções que acabara de viver.

Chegado a Cartum, uma cidade localizada na confluência do Nilo Branco com o Nilo Azul cujas águas se juntam para formar o grande Nilo, depois de instalado numas instalações precárias que agravavam a sensação sufocante que uma temperatura de trinta e oito graus provocava na firmeza das decisões tomadas, Torre do Valle preparou o estaleiro onde iria proceder à recuperação numa pequena garagem de reparação de automóveis.
Torre do Valle contacta telegraficamente com a fábrica DeHavilland em Inglaterra para que lhe fosse enviado pela Mala Aérea o material necessário para a reparação do motor do GAZA III.
No dia catorze daquele mês de Abril o Gaza III chegou ao embarcadouro fluvial e foi posteriormente transportado para o aeródromo de Cartum onde foram avaliados os estragos verificados à descolagem de Malakal.
Um parafuso da fixação da biela à cambota soltara-se e esta, descendo a grande velocidade, perfurara o carter provocando uma enorme abertura por onde se escapara o óleo do motor.
A recuperação ocupou os nossos aviadores durante seis dias em que se esforçaram num horário de trabalho quase contínuo para deixarem rapidamente aquela cidade onde um ambiente sufocante provocado por temperaturas de trinta e oito graus, lhes secava a garganta as mucosas do nariz e dos olhos!
Torre do Valle lamentava-se por telegrama enviado ao seu amigo Calçada Bastos em Lourenço Marques, como o fazia regularmente  no decorrer da sua viagem sempre que encontrasse facilidade de correios: -  Tive de mandar vir do Cairo vários empanques e anilhas para completar o material sobressalente enviado de Londres. A montagem do motor decorre porém com uma lentidão capaz de “fazer perder a paciência a um china”.
Todos estes inconvenientes provocaram em Torre do Valle um sentimento de dúvida em relação à confiança que sempre depositara no funcionamento do motor do seu avião.

Com um atraso de vinte e quatro dias sobre a data planeada descolaram de Cartum seguindo Nilo até a Wadi Halfa, uma cidade situada junto à margem oriental do Rio Nilo, dez quilómetros depois da Segunda Catarata, na fronteira com o Egipto e na margem do grande “Lago Nubia” que designa a parte sudanesa do grande lago da barragem de Assuão construída entre 1899 e 1902 com recursos a capitais ingleses. Esta primeira barragem foi alargada em 1911 e na altura em que os nossos aviadores lá chegaram, o lago estava na fase final do seu enchimento.
A cidade e os seus arredores ricos em antiguidades e ruinas de antigos monumentos Núbios, fica no términus da linha de caminho de ferro vinda de Cartum a partir da qual as mercadorias eram transferidas para os “ferries” operando no lago.
No dia dois de Maio deixaram finalmente aquela cidade situada junto ao deserto com uma escassa mas acolhedora população que não lhes conseguiu proporcionar alojamento capaz de os ajudar a suportar as temperaturas exageradamente altas que acresciam ao vento quente vindo da margem ocidental do Lago.

Voavam já com destino à cidade do Cairo seguindo o leito do Rio Nilo que corria num trilho de suaves meandros  em direcção ao Mediterrâneo.
À medida que se aproximavam do delta do Nilo contemplavam surpreendidos  a intensa actividade agrícola que prosperava numa faixa de muitos quilómetros de cada lado do Nilo numa visão de verdejantes culturas que atestavam a importância deste recurso hídrico que levou o historiador grego Heródoto de Halicarnasso, geógrafo e historiador conhecido pelo pai da história, a declarar já no século quinto aC que “ O Egipto é a dádiva do Nilo”.
Estavam a cerca de três horas do destino, a pouco mais de meio caminho entre Wadi Halfa e o Cairo quando Torre do Valle começou a aperceber-se que algo funcionava mal no motor do GAZA III – à medida que o tempo passava, a pressão do óleo do motor que indicava um valor de quarenta e duas libras ia descendo para quarenta até chegar ao trinta e três que sugeria uma fuga de óleo e que o levou a subir  para os quinze mil pés prevenindo a possibilidade de, caso o motor gripasse, poder escolher um local onde aterrar. Atingida a altitude pretendida reduziu as rotações do motor para ver se concluía o voo.
A acrescentar a esta anómala situação os dois tanques de gasolina apresentavam pequenas fugas que se anunciavam pelo cheiro a combustível no habitáculo e que obrigaram Torre do Valle a abrir a janela de correr do seu lado esquerdo para retirar os gases capazes de provocar um fogo a bordo!
A situação era pois deveras complicada: por um lado era aconselhável o voo  o mais alto possível para o caso de griparem o motor ser possível um planeio prolongado; por outro lado, pensava ele, “se pudesse voar a cinco metros do chão, em caso de se declarar um fogo teriam talvez tempo de se safarem”!
Por isso, logo que chegaram à cidade do Cairo, Torre do Valle muito preocupado com o seu GAZA III, tratou de alugar uma garagem junto ao “souk” numa das vielas onde fervilhava uma grande actividade comercial de pequenos vendedores e desmontou completamente o motor substituindo a maior parte dos componentes da fixação das bielas à cambota após o que realizou uma montagem criteriosa do motor. Em relação à fuga de combustível optou também por uma vistoria minuciosa e a substituição das torneiras, empanques e anilhas nos dois tanques.

Amanhecera quente o dia três de Maio com a mesma temperatura de trinta e nove graus com que anoitecera.
-       Os meus sinceros parabéns por este seu quadragésimo quinto aniversário - cumprimentou o Amadeu abraçando Torre do Valle num gesto afectuoso tentando afastar a tristeza que adivinhava no olhar do seu companheiro.
O planeamento da viagem elaborado com tanto cuidado previa que ao fim de onze dias de voo, ou seja por volta do dia doze de Abril estariam em Lisboa já recuperados da viagem possibilitando a Torre do Valle festejar os cinquenta anos de vida junto da família e dos amigos.
Mas quantas vezes sucede que pensamos ter programado a nossa vida de maneira a redundar em sucesso, mas depois resulta tudo ao contrário porque se ergue algo que não foi devidamente previsto!
 - “Bem sei que que a “panne” que eu tive é uma das que se dão uma vez em mil, mas como aconteceu uma vez podia-se repetir”, lamentava mais tarde ao seu amigo Calçada Bastos!
Torre do Valle, homem de acção e decisões rápidas, tratou de tornear estas adversidades:
-       envia uma mensagem telegráfica para a sua mulher anunciando que até catorze de Maio estaria em Portugal para a beijar e às sua queridas filhas;
-       seguidamente lança-se com entusiasmo no prosseguimento da aventura.

Na manhã de onze de Maio o GAZA III descolava do aeródromo do Cairo com destino a Bengazi voltando para leste numa inclinação que permitia aos nossos aviadores rever aquela enorme cidade que apresentava aqui e além um elegante toque parisiense na arquitectura dos seus mais representativos edifícios.
Amadeu toca no ombro de Torre do Valle apontando para a Necrópole de Gizé situada num planalto que se distinguia perfeitamente a leste da cidade, e que  por insistência do seu companheiro acabara por visitar:
-       Amadeu, não há necessidade de continuares agora aqui porque o trabalho mais difícil está acabado. Restam somente pequenos ajustamentos que estão a correr a bom ritmo que  não justificam a tua presença neste espaço tão apertado.
Por isso vai visitar a cidade do Cairo, passeia pelo Nilo e sobretudo não te esqueças de visitar a Esfinge e as três pirâmides que me irás depois dizer como se chamam.
E Amadeu repetia numa voz aprazível que se entendia com perfeição:
-       Quéopes ( a grande pirâmide )  ... Quefren ( a mais pequena )  ...  e Miquerinos ( a menor das três ) !

Voavam agora numa rota paralela ao Mar Mediterrâneo em direcção à  cidade de Bengasi fundada pelos gregos em 446 aC e situada no golfo de Cidra na Líbia nos verdes oásis junto das áreas mais baixas da planície costeira.
No ano em que Torre do Valle chegou a Bengasi, a população era composta por cerca de trinta por cento de colonos italianos e que teve como consequência um rápido crescimento económico na segunda metade de 1930.

A viagem retomava agora o ritmo com que se iniciara ajudado pela presença do Mediterrâneo que com a sua cor verde esmeralda insuflava um novo ânimo aos nossos protagonistas.
O motor voltava a sugerir a comparação por vezes proferida de que trabalhou como um “autêntico relógio suíço” nas oito horas que durou o voo desde que descolaram do Cairo!
O final da expedição estava já próximo e as sete horas e cinquenta minutos que voaram até à cidade de Gabés na Tunísia foi mais uma etapa que adiantaram na contagem final da viagem.
Gabés localizada a sul da cidade de Tunes e junto à ilha de Jerba encantou-os pelas suas lindas praias de águas transparentes cobrindo uma fina areia branca, mas encantou-os sobretudo as suas palmeiras tamareiras de aspecto diferente das palmeiras que crescem nas praias do Índico, os coqueiros, a que estavam habituados a encontrar.
Com o GAZA III a portar-se  como quando Torre do Valle o voou pela primeira vez em 1931, o troço de Gabés a Tanger numa distância de mil e quatrocentos quilómetros foi decerto o mais comprido e aquele em que a modificação dos tanques foi posta à prova pois que lhes permitiu voar durante nove horas até ao destino.
O voo envolvia certos riscos já que teriam de voar no meio de dois alinhamentos paralelos de montanhas que constituem a Cadeia do Atlas e que separa os Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo do grandioso deserto do Sahara. O voo foi executado a uma altitude de catorze mil pés de modo a assegurar, em caso da falha do motor, a possibilidade de um planeio suficiente para procurar na região dos lagos salgados existente entre estes duas fileiras de montanhas um local para uma aterragem segura.
Chegaram a Fez no fim de uma tarde radiosa em que o Sol prestes a deitar-se para o lado das montanhas do Alto Atlas iluminava ainda os minaretes das mesquitas da Almedina rodeada pela velha muralha que escondia um labirinto de ruas estreitas de coloridos “souks” derramando cheiros intensos de especiarias.
Fez foi durante várias épocas a cidade capital do Reino de Marrocos que a partir de mil novecentos e doze passou a ser um protectorado francês e que escolheu a cidade de Rabat para nova capital do reino.
A viagem estava prestes a terminar e a excitação da expectativa da próxima etapa quase não os deixou dormir.
De Fez seguiriam directos a Tanger para uma derradeira aterragem em território africano cumprindo as formalidades aduaneiras da saída de Marrocos com destino a Portugal onde chegariam nesse mesmo dia catorze de Maio.

Voavam agora mais descontraídos adivinhando já o cheiro perfumado dos campos alentejanos cobertos de flores de Maio e em breve sobrevoavam o Estreito de Gibraltar descobrindo à direita da sua rota o altaneiro “ penedo “ de Gibraltar.
Torre do Valle gritou para que Amadeu o ouvisse, apontando para o lado esquerdo do Golfo de Cádis:
-       Já vejo terras de Espanha e mais além, as praias de Portugal! – numa referência aos versos da “Nau Catrineta” – Além, mesmo à nossa frente, está a Foz do Guadiana. E em cada margem a cidade de Aiamonte na margem esquerda e a cidade de Vila Real de Santo António  na margem oposta. Consegues ver?

Faltava menos de hora e meia e já conseguiam avistar o grande estuário do Rio Tejo e mais além, no meio do imenso leito que se espraiava num enorme mar, (o “mar da palha” como era conhecido), já se avistavam as construções e o aeródromo sede do Grupo Independente da Aviação de Bombardeamento como era designado o complexo militar do aeródromo de Alverca que em breve sobrevoavam anunciando a sua chegada.
Eram precisamente treze horas dessa tarde de catorze de Maio de mil novecentos e trinta e tês quando o GAZA III, após duas voltas a baixa altura anunciando a sua chegada, tocou de mansinho a pista de Alverca e iniciou a rolagem para o local de estacionamento onde não se encontrava vivalma. Por fim começaram a aparecer os militares da guarnição que um pouco espantados com a inesperada aparição interpelaram os nossos dois aviadores em francês:
-  Quando pensam partir?
 - Não somos franceses. Somos portugueses e acabamos de chegar         vindos de Lourenço Marques!
Aproximou-se o oficial de dia que ouvindo o relato da chegada dos nossos heróis que ninguém esperava não obstante um cabograma que Torre do Valle tivera o cuidado de enviar de Tanger anunciando a chegada a Alverca por volta das treze horas tratou de proporcionar-lhes um caloroso acolhimento de tal modo espontâneo que nunca mais puderam esquecer!

Torre do Valle acabara de voar mais de doze mil quilómetros por lugares de África onde a vastidão dos horizontes conferem um sentimento de grandeza e liberdade que, comparando agora com a “pequenez do horizonte da sua Pátria onde as distâncias de tão curtas não lhe conferiam espaço suficiente para o voo das suas asas”, tem mais tarde para com o seu amigo  Calçada Bastos o seguinte desabafo numa carta que lhe escreveu:
Compreendo agora porque a aviação civil está tão pouco desenvolvida em Portugal. Isto é muito pequeno, duas horas para Sul, três horas para Norte e uma hora para Leste e está-se fora de Portugal; os aeródromos são poucos. Cada vez que se sai de Portugal é necessário pedir autorização aos Governo das Nações por onde se passa e isso leva muito tempo e sobretudo não tem havido por parte do Governo interesse algum.

Esta viagem mereceu uma notícia publicada no dia seguinte à chegada a no “Diário de Lisboa” com o seguinte título:
ULTIMAS NOTÍCIAS – Um voo de Lourenço Marques a Lisboa – Aterrou ontem em Alverca um aviador que fez a viagem em onze dias de voo.

Ecoavam ainda as últimas palavras da narrativa que o meu passageiro Acácio Augusto Pires iniciara há cerca de três horas após a descolagem da Beira e que prendera a minha atenção pelo modo apaixonado da sua descrição quando estávamos prestes a chegar a Lourenço Marques cujo casario se divisava lá bem ao longe destacando-se ao fundo do vale do Infulene, anunciando o fim da nossa viagem.

-       Caro amigo – murmurei após uns minutos de silêncio - O que acaba de me contar foi algo de extraordinário que eu desconhecia: o “raid” aéreo proposto e realizado pelo piloto civil Armando Torre do Valle com a participação do seu companheiro Amadeu de Araújo!
A maneira como o relatou deixou-me encantado e agradecido.

-       Acácio Pires olhou-me demoradamente como que à procura das palavras apropriadas e adiantou - Exactamente por isso, e como sei que é um ouvinte atento tive o maior prazer em faze-lo! – e prosseguiu - Mas agora que se declarou encantado com esta aventura, vou pedir-lhe que me prometa algo que para mim é muito importante. Que irá escrever uma história relatando a proeza que acaba de escutar para que se torne conhecida a herança que estes “pioneiros” da aviação nos legaram e sobretudo o que eles  representam no nascimento da Aviação Civil em Moçambique.

Quase cinquenta anos após esta viagem eis-me aqui e agora satisfazendo o desejo e cumprindo a promessa que fiz ao meu passageiro, Acácio Augusto Pires um admirador confesso de Armando de Vilhena de Barros e Vasconcelos da Torre do Valle.


 VILA DE PAREDE,  3 DE MAIO DE 2014







                                                J. Primavera