O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivo alheio algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

30/03/17

920 - O desembarque dos três Lockheed Super Electra da DETA em 1940

Copiado de http://housesofmaputo.blogspot.pt/

A DETA adquiriu em 1940 três aviões Lockheed Super Electra nos Estados Unidos. Estas imagens deles são do espectacular site VoandoemMozambique (VeM). Tentamos com elas reviver o épico dia do seu desembarque no porto de Lourenço Marques, actual Maputo. Algumas ou todas foram feitas pelo mecânico da Lockheed Aircraft que veio a Moçambique efectuar a montagem e foram disponibilizadas ao VeM pelo filho (aqui no VeM) que chama a este período os "anos dourados" da aviação. Os aviões foram transportados no navio com as asas semi desmontadas, sem estabilizadores verticais e com os vidros e motores bem protegidos. 
FOTO 1
CR-AAZ (chamado Búzi) no cais de LM desembarcando em Junho de 1940
O CR-AAZ acaba de tocar com as rodas no chão pois o cabo de aço do guindaste começa a ficar lasso. Foi o primeiro a ser desembarcado e ficou na posição mais para nascente = leste do porto e mais próximo da saída para onde será rebocado pela traseira.

FOTO 2
Os três aviões desembarcados entre o cais e os armazéns
(de artigo de 1985 re-publicado no VeM)
O avião que está mais à frente nesta FOTO 2 foi o último a ser desembarcado e ainda tem o cabo de aço preso. O CR-AAZ está ao fundo na posição vista na primeira foto e frente a um dos grandes espaços livres entre os armazéns do porto.

FOTO 3
Os três aviões saem do porto para a Praça Mac Mahon, actual dos Trabalhadores
São rebocados pela traseira e o que vem à frente é o CR-AAZ da FOTO 1. 
Podemos idealisar o que aconteceu no mapa de 1940 - que será mais ou menos fiável - e numa foto dos anos 50 em que penso que algo estava já diferente, mas deve dar uma ideia geral do trajecto efectuado.

MONTAGEM 4
Vermelho: CR-AAZ, o primeiro avião a ser desembarcado e a sair do porto
Castanho claro e rosa: os outros dois aviões 
que tiveram mesma sequência de desembarque e de saída
Laranja: primeira central do porto que se adivinha na FOTO 1 para lá do armazém
Linha azul clara: linha de vista da FOTO 1,

passando ao lado da esquina do armazém
Verde: alfândega nova, edifício de 2 pisos à direita na FOTO 3
Amarelo: armazém ao fundo da FOTO 1
Roxo: trajecto de saída do porto para a cidade.
Castanho escuro: Praça Mac Mahon já fora do porto
Noto que na foto da MONTAGEM 2, bastante posterior a 1940, havia construções na primeira curva do trajecto que não deviam existir em 1940 como se mostra no mapa. Este local no cais deve ter sido expressamente escolhido para a atracagem do navio com o intuito de possibilitar a melhor saída dos aviões para fora do porto.

Mais uma pequena achega do HoM. Na FOTO 3 vê-se que o tractor do CR-AAZ tem matrícula dos CFM, Caminhos de Ferro de Moçambique. Em 1936, 4 anos antes, os CFM anunciaram um programa de motorização do cais para reduzir o recurso a trabalho manual e publicitaram esta imagem:  

FOTO 5
Porto de LM em 1936 - tractor eléctrico de 40 toneladas
No entanto o tractor da FOTO 5 é diferente do da FOTO 3 e de facto para estes aviões podem ter sido usados tractores muito menos potentes (também não sei se seria mais conveniente serem eléctricos ou não). Segundo a Wikipedia o peso vazio do Super Electra é de só 4.8 tons - Empty weight: 10,750 lb (4,876 kg).

Voltamos às imagens do VeM:
FOTO 6
Tractor e CR-AAZ parecem-me a chegar ao aeroporto
Das fotos detalhadas no VeM com os Lockheed Super Electra, eis uma do trio ainda intacto com o Zambeze em primeiro plano: 

FOTO 7
Os três Super Electra da DETA frente ao primeiro hangar 
com a aerogare de Mavalane ao fundo.
Quadro sobre os Lockheed 14-H2 Super Electra
cortesia Voando em Mozambique
MatriculaNomeNotas
CR-AAVLimpopoDestruído a 23/02/44 em Quelimane, comandante Francisco Pinto Teixeira
CR-AAXZambezeDestruído a 14/11/41 em Inhambane, comandante Borges Delgado
CR-AAZBúziDesmantelado a 5/8/54

Note-se que o comandante Francisco Pinto Teixeira vitimado em Quelimane era filho do Eng. Pinto Teixeira, o histórico director dos CFM que lançou a DETA. Como se vê o CR-AAZ Búzi foi o único destes Super Electra que chegou ao fim da vida útil. A DETA não comprou mais deste mas fez compras doutros modelos à Lockheed.

22/03/17

919 - Aeródromo da Carreira de Tiro e a fundação da DETA em 1936/37


Três novas fotos permitem abordar um assunto interessante do passado da cidade de Lourenço Marques, actual Maputo. A FOTO 1 de 1936 é da chegada do "Cruzeiro aéreo às colónias" (ver filme do regresso a Lisboa) e pode ser localizada através do grande edifício ao fundo.

FOTO 1
Legenda original: num extremo do aeroporto de LM em 1936

Com a FOTO 2 de 1937 confirma-se que o edifício para o fundo da FOTO 1 era a Cadeia Civil de LM (aí vista pelas traseiras, olhando em direcção à baía). 

FOTO 2
Em medalhão a mesma secção da Cadeia Civil que se via na FOTO 1.
No solo, um avião Dragon Rapid da DETA de 6-7 lugares (CD-AAD)
O outro avião ZS era sul africano.

As duas fotos são assim da zona da Carreira de Tiro que fica localizada para poente = oeste da cadeia. De facto o primeiro aeródromo da cidade foi nessa zona, antes de em 1938 se ter mudado para a zona actual de Mavalane, e a FOTO 2 mostra-nos onde estacionavam aí os aviões. 
A FOTO 3 deveria permitir a sua localização mais precisa mas não o consigo fazer. Deve ser de 1936 e mostra o que é presumivelmente um hangar para aviões com Lourenço Marques escrito no telhado.  


FOTO 3
Hangar com o primeiro avião da DETA, 
um Hornet Moth de 2 lugares
A foto seguinte é de 1933 e pela primeira vez vêm-se as pistas do aérodromo da Carreira de Tiro:


FOTO 4
Vermelho: uma das pistas do aeródromo
Preto: Cadeia Civil 
Branco: traseira da cadeia que se vê nas FOTOS 1 e 2
Verde: deduz-se ter sido por aí o local das FOTOS 1 e 2
Castanho escuro: Carreira de Tiro, própriamente dita
Castanho claroZona militar/Residências da oficialidade
Ruas principais (nomes actuais)
Laranja: Av. Nkrumah - Roxo: Av. Nyerere - Amarelo: Av. Cabral
Nesta foto no entanto não se consegue ver com certeza o hangar da FOTO 3 com o seu telhado peculiar, talvez nessa data em 1933 nem existisse. 

Como se explica no texto do HPIP (sumarizado em baixo) houve um certo período de sobreposição/transição entre os dois aeródromos de LM. Por isso não tenho a certeza se a FOTO 3 é da Carreira de Tiro mas um ponto a favor de que seja é que os primeiros hangares construidos em Mavalane em 1937/38 foram muito maiores que esse. Vimos assim aqui onde estacionavam os aviões na Carreira de Tiro e as pistas do aeródromo que parecem mais ou menos na direcção das pistas actuais do aeroporto de Maputo. 

Texto do HPIP
Um outro passo importante viria a ocorrer, dois anos mais tarde, com a criação de um novo aeroporto na capital moçambicana em 6 de Abril de 1938. .... Até fins de Março de 1938 foi ainda utilizado o antigo aeródromo militar da Carreira do Tiro, por não se terem ainda as pistas preparadas do novo para os aviões poderem aterrar e descolar com carga. Porém, no final do dia, os aviões eram recolhidos no hangar de Mavalane, para onde vinham descarregados. A partir de Abril desse ano (1938), todo o serviço passou a ser feito no atual aeroporto.

E este é o texto de 1938 referindo a inauguração de Mavalane e dizendo que o campo da Carreira de Tiro passou para o aero clube da altura, Clube Desportivo Aeronáutico. 
Moçambique Documentário Trimestral de 1938
Passando para a DETA, actual LAM, a companhia aérea de Moçambique foi fundada pelos Caminhos de Ferro em 1937 e o seu primeiro serviço regular foi lançado em 22 de Dezembro desse ano com um avião Dragon Rapid como o da FOTO 2 (havia inicialmente dois). A frota inicial da DETA era toda fornecida pela britânica De Havilland, tendo ainda o Hornet Moth da FOTO 3 mais um Dragon Fly de 5 lugares (que continua a voar).
Outro Dragon Rapid da DETA como o da FOTO 2
Este era o BEIRA CR-AAE em 1953 sendo abastecido
As três primeiras fotos e parte das informações foram recolhidas na publicação Moçambique Documentário Trimestral, edições de 1937 e de 1938.

27/12/16

918 - CR-AHN do ACB - Aeroclube da Beira




CR-AHN e Ricardo Quintino 


Tirei o brevet juntamente com o Loja no ACB nos  anos de 1962/63, tendo tido como instrutores o Roca e o Vieira da Silva. Fiz  umas largas  centenas de horas na distribuição do correio militar pela FAV301,  com voos regulares semanais para Chibabava, Espungabera, Vila Pery, Vila Gouveia  e ocasionalmente para Inhaminga.

Foto e texto de Ricardo Quintino


 CR-AHN.
Foto de Rui Garizo
 CR-AHN.
Foto de Rui Garizo

08/04/16

916 - O velho aeroporto de Mavalane

1ª.  estação aérea da colónia em Lourenço Marques
No dia 6 de Abril de 1938, o Governo-geral de Moçambique, através do Boletim Oficial de 6 de Abril de 1938, autoriza a Direcção dos Serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes a abrir ao público a 1ª.  estação aérea da colónia em Lourenço Marques, situada ao quilómetro 7 da linha de Marracuene (Mavalane).
Boletim Oficial de Moçambique de 6 de Abril de 1938: 
Artigo 1º - É autorizada a Direcção dos Serviços de Caminho de Ferro e Transportes a abrir ao público a partir do dia 1 de Abril corrente o aeródromo de Lourenço Marques, situado ao quilómetro 7 da linha de Marracuene (Mavalane) 
Artigo 2º - É fechado ao serviço público o antigo campo de aterragem na Polana (Carreira de Tiro)