O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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04/09/14

877 - A MINHA HOMENAGEM AO COMANDANTE AUGUSTO JOSÉ RODRIGUES (1925 – 2014)

Homenagem do Cte. Joaquim Primavera ao Cte. Augusto José Rodrigues



A MINHA HOMENAGEM AO COMANDANTE AUGUSTO JOSÉ RODRIGUES (1925 – 2014)


NO MEU PRIMEIRO VOO NUM DAKOTA, COMO CO-PILOTO DA DETA, O COMANDANTE DESSE VOO FOI PRECISAMENTE O COMANDANTE AUGUSTO RODRIGUES.
COMO DEVEM CALCULAR PREPAREI-ME CAUTELOSAMENTE PARA O VOO, E PARA QUE NÃO HOUVESSE QUALQUER ATRASO PRECAVI-ME COM O AUXÍLIO DE UM DESPERTADOR QUE INCRIVELMENTE PERMANECEU MUDO E QUEDO. POUCO DEPOIS A FÁTIMA DESPERTOU ASSUSTADA JÁ  PERTO DA HORA DE APRESENTAÇÃO PARA O VOO. FARDEI-ME RAPIDAMENTE E SAÍMOS APRESSADOS EM DIRECÇÃO AO AEROPORTO.
DISPONDO FELIZMENTE NA ALTURA DE UMA VIA PRATICAMENTE DESIMPEDIDA AQUELA HORA DA MANHÃ CHEGUEI ÁS OPERAÇÕES DE VOO NO AEROPORTO DE MAVALANE APENAS COM CINCO MINUTOS DE ATRASO.
-       AS MINHAS DESCULPAS COMANDANTE ... E LÁ TENTEI JUSTIFICAR AQUELA SITUAÇÃO, DIGA-SE QUE DESCONFORTAVELMENTE PELA PRESENÇA DAQUELE HOMEM QUE SORRINDO IMPRESSIONAVA PELO SEU TAMANHO FÍSICO!
-       PRIMAVERA. O PROBLEMA ERA SEU SE FALTASSE AO VOO ... E ACRESCENTOU NUM TOM CALMO E COMPLACENTE ... FALAMOS DEPOIS NO AVIÃO.

DA SEGUNDA VEZ QUE VOLTAMOS A VOAR, ESTÁVAMOS NA PLACA DE ESTACIONAMENTO DO AERÓDROMO DO MATUNDO, EM TETE, A AGUARDAR AUTORIZAÇÃO PARA INICIAR O TAXI PARA A POSIÇÃO DE DESCOLAGEM DA CABECEIRA SUL, DO LADO DO RIO ZAMBEZE MAS QUE DEMORAVA PELA APROXIMAÇÃO DE UMA AERONAVE MILITAR QUE TARDAVA EM ATERRAR!
ENTRETANTO A CÉLULA DE UM ENORME “CUMULO NIMBUS” VINDO DE SUL, DO LADO DO ZAMBEZE APROXIMAVA-SE DA CABECEIRA DA PISTA DONDE IRÍAMOS DESCOLAR COM DESTINO A VILA COUTINHO.
O COMANDANTE AUGUSTO IMPACIENTAVA-SE E COMENTAVA PARA QUE EU O OUVISSE:
-       DAQUI A POUCO JÁ NÃO CONSEGUIMOS  DESCOLAR ...
QUEM NÃO O CONHECESSE BEM, E ERA ESSE AINDA O MEU CASO, SENTIR-SE-IA DESCONFORTADO PELA APARENTE IMPACIÊNCIA REVELADA PELOS COMENTÁRIOS QUE IA PRONUNCIANDO ATÉ QUE FINALMENTE FOMOS AUTORIZADOS A PROSSEGUIR PARA A POSIÇÃO DE DESCOLAGEM.
-       PRIMAVERA FAÇA UM TAXI RÁPIDO PARA VER SE AINDA CONSEGUIMOS DESCOLAR.
-       COMANDANTE – ACRESCENTEI – AINDA NÃO ME SINTO SEGURO PARA CORRER PELA PISTA NUM TAXI TÃO RÁPIDO COMO O COMANDANTE QUER.
-       OK – ACRESCENTOU – TENHO O AVIÃO!

E COM UMA FORTE MOTORADA PERCORREU A DISTÂNCIA DESDE A PLACA DE ESTACIONAMENTO ATÉ À CABECEIRA SUL, ALINHOU O DAKOTA E BLOQUEANDO A RODA DE CAUDA, DEU-ME UMA PALMADA NAS COSTAS E ACRESCENTOU:
-       O AVIÃO É SEU, DESCOLE ...

PASSADOS MUITOS ANOS DEPOIS DESTES DOIS PEQUENOS EPISÓDIOS, O COMANDANTE AUGUSTO RODRIGUES VEIO TER COMIGO NA APPLA E ENTREGANDO-ME UM PEQUENO ESPÓLIO QUE CONSEGUIRA OBTER RELATIVO A OUTRO NOSSO COLEGA (COM QUEM JÁ NÃO VOEI), O COMANDANTE MANUEL MARIA ROCHA, E PEDIU-ME, COM UM AR MUITO SÉRIO, QUE ESCREVESSE ALGO SOBRE ESTE GRANDE PIONEIRO NÃO SÓ DA AVIAÇÃO MOÇAMBICANA, COMO TAMBÉM DA PORTUGUESA.

ESTE ESPÓLIO FICOU ADORMECIDO NUMA GAVETA DA MINHA SECRETÁRIA DURANTE ESTES ANOS TODOS.

ANTEONTEM, POR INCRÍVEL COINCIDÊNCIA, DISPUS-ME A INICIAR A MEMÓRIA 21ª DAS “MEMÓRIAS PARA UM BUSH PILOT” E COMECEI A COLIGIR OS ELEMENTOS POSSÍVEIS SOBRE A VIDA DAQUELE NOSSO COLEGA E QUE O COMANDANTE AUGUSTO RODRIGUES ME PEDIRA HAVIA ANOS QUE O ESCREVESSE.

E FOI ENTÃO QUE FUI INTERROMPIDO NO MEU TRABALHO PELO DESPERTAR DO MEU TELEMÓVEL QUE ME ANUNCIAVA A TRISTE NOTÍCIA DO FALECIMENTO DAQUELE AMIGO A QUEM EU PROMETERA ALGO QUE SÓ AGORA COMECEI A CUMPRIR LAMENTANDO QUE ELE JÁ O NÃO POSSA LER.

JOAQUIM PRIMAVERA

VILA DE PAREDE, 3 DE SETEMBRO DE 2014