O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivo alheio algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

07/12/09

642-MEMÓRIAS PARA UM “BUSH PILOT”- Memória Sétima: O INFERNO DO PANDE


“O INFERNO DO PANDE” – Fotografia tirada a bordo do Cessna 180 CR-AFH sobrevoando o local do incêndio a cerca de 1500 pés de altura, 12 horas após ter deflagrado. Na foto vê-se à direita a estrutura da torre de aço com cerca de 30 metros de altura que se desmoronou em minutos, fundida pela temperatura da chama avaliada em cerca de 1000 graus centígrados

MEMÓRIA SÉTIMA: O INFERNO DO PANDE

A PISTA DO PANDE:
Quando pensei escrever mais esta pequena narrativa sobre uma pista, a do Pande, não encontrei relacionado com ela, nada parecido com os finais que tenho utilizado nas outras MEMÓRIAS, em que termino invocando uma situação divertida aproveitando-me dos comentários dos passageiros envolvidos na narração!
É que na verdade esta ideia surgiu da recordação de um acontecimento algo insólito e grandioso que veio repentinamente quebrar a rotina das nossas missões do táxi aéreo com destino à pista do Pande e que foi o grande incêndio que deflagrou numa perfuração de um poço de gás natural naquela região.
Antes de iniciar esta MEMÓRIA, tive o cuidado de percorrer na Internet quer os sites relativos a Moçambique, quer ainda o site da então designada Mozambique Gulf Oil Company, que explorava a prospecção do petróleo em Moçambique, nomeadamente a exploração de gás natural na província de Inhambane, sem que tenha obtido qualquer referência àquele incêndio!
A única menção curiosa que consegui encontrar, diz respeito ao site de um texano, o Snr. Red Adair conhecido pelo “Oil well fire fighter” americano e que eu vi um dia à sua chegada à Beira, rodeado de uma enorme cobertura jornalística.
Eis um pedaço da biografia deste bombeiro americano:
“Red Adair was the most famous firefighter in the world, known for his expertise in putting out oil well fires and controlling well blowouts. After serving in a bomb disposal unit in World War II, Adair returned to Texas and started fighting oil well fires. In 1962 he gained international fame when he led a team that put out a fire in the Sahara that had been burning for six months. (The gas fire had been dubbed "The Devil's Cigarette Lighter.") Adair founded his own equipment and consultation business in 1972 and pioneered firefighting techniques and tools. After the Gulf War in 1991 he participated in controlling the oil well fires in Kuwait (set by Saddam Hussein's retreating army).”
O estranho porém é que do seu curriculum não consta curiosamente nada da sua actuação, assaz discutível, senão fracassada, como veremos adiante, no incêndio do Pande.

Terminados estes considerandos, vamos já de imediato para a narrativa desta nossa MEMÓRIA SÉTIMA.
Mal havia chegado naquela manhã daquele ano de 1965 ao escritório dos TAM no aeroporto da Manga na cidade da Beira quando o telefone tocou insistentemente sem se desligar ainda que eu me tivesse atrasado em atender.
Uma voz feminina, abafada, tentando esconder a sua identidade, perguntou:
- Quem vai voar esta manhã para o Pande?
- Sou eu, mas porquê? Interroguei.
- Leve consigo uma máquina fotográfica …
- Para quê? Atalhei.
- Para tirar fotografias a algo de grandioso que alguma vez supôs poder um dia assistir …
- Mas o que se passa? Perguntei.
- O furo do Pande está a arder desde as 20 horas de ontem …

Sem dar possibilidade a qualquer pergunta ou comentário meu, a dona daquela voz misteriosa desligou …
Acreditem que, sempre que voava, transportava normalmente comigo a minha máquina fotográfica Canon, preparada para colher quaisquer imagens interessantes com que deparasse nas minhas viagens. Só que nesse dia não a tinha comigo!
De imediato telefonei ao meu Amigo, o conhecido fotógrafo do Diário da Beira, Ricardo Rangel, para me arranjar uma máquina carregada com o respectivo filme, sem mencionar as razões desse meu pedido, até porque esta situação já havia acontecido numa ou outra ocasião.
Porque o meu colega, o João Quental só tivesse um voo programado para daí a três horas, pedi-lhe que me acompanhasse no voo evocando a promessa de uma surpresa à nossa chegada ao Pande.
Havíamos deixado já para trás a povoação de Sofala, dez minutos depois de descolados da Beira no nosso voo de 50 minutos para o Pande, quando se começou a distinguir uma coluna de fumo rasgando o céu sem nuvens daquela manhã de Verão.
Desembarcados os dois passageiros e a respectiva carga que transportara para o Pande, descolei de regresso à Beira sobrevoando em círculos, a cerca de 1500 pés de altura, aquela chama imensa, tendo o João que pilotava agora a aeronave, o cuidado de não se aproximar demasiado para não chamuscar as asas do nosso “pássaro”, enquanto eu, liberto da pilotagem, disparava ininterruptamente a Canon emprestada.
Chegados à Beira já nos aguardavam quer o Rangel, quer o director do Diário da Beira conhecedores em pormenor quer do incêndio quer das fotografias que tirara pedindo-me que lhas facultasse para divulgação no seu jornal.
Foi assim que esta fotografia que inicia esta minha SÉTIMA MEMÓRIA correu todas as agências noticiosas nacionais e estrangeiras.
Mas vejam só a minha falta de visão comercial - para além da satisfação pessoal de a saber publicada em muitos dos diários de todo o mundo, não exigi qualquer retribuição pecuniária pela sua cedência ao jornal.
Em contrapartida ainda houve uma tentativa de pressão por parte do responsável da Golf Oil na Beira, junto do gerente da TAM, o meu amigo Jorge Guerra, para que nos fosse imposto um procedimento disciplinar, a mim e ao João Quental, pelo facto de termos fotografado aquele incêndio sem a sua autorização prévia!
Foi após a publicação destas fotos denunciadoras daquele enorme acidente, que desembarcou tempos depois, no aeroporto da Manga na cidade da Beira, o célebre "apagador de fogos", o americano RED ADAIR que acima me referi e que rodeado de uma cobertura jornalística enorme, depois de montar um dispositivo com cargas explosivas, especialmente concebido para o efeito, apagou de um só sopro, o incêndio que durava havia já uns meses. Mas imagine-se só o que àqueles cérebros não ocorrera : é que apagado o fogo, o gás natural continuava a sair pela abertura à superfície, a uma pressão de uns 80.000 psi, poluindo a atmosfera num raio de muitas dezenas de quilómetros. Em face disto, voltaram a reacender a chama que permaneceu ateada por mais de uns dois anos.
Entretanto foram destacados para a pista do Pande em regime de permanência, um piloto e respectiva aeronave com o objectivo de assistir a qualquer emergência que pudesse surgir. E como mais novo na empresa, coube-me a mim esse destacamento ficando alojado nas instalações do pessoal da Golf Oil, constituído por contentores devidamente climatizados.
Recordo-me ainda da primeira noite que lá passei depois do meu regresso do voo daquela manhã em que avistei pela primeira vez aquela chama de cor vermelha alaranjada:
- A noite não chegava nunca depois do por do Sol, tão intensa era a luz daquele imenso archote que iluminava a paisagem rasgada pelas silhuetas de animais espantados, cruzando-se alheios à presença de cada um. Viam-se pequenas gazelas e cudos correndo indiferentes à vizinhança de um leopardo solitário ou de um bando de mabecos, viam-se cobras rastejando apressadas, mochos esvoaçando confusos num voo silencioso contrastando com o estridente ruído do gás queimado à saída do solo donde se escapava, num cenário digno da pena do génio poético de Dante.
Depois, a vida foi rareando e aos poucos a paisagem ficou deserta de seres vivos à excepção dos humanos que teimosamente e por motivos diferentes eram obrigados a permanecer. Restavam apenas, quais fantasmas, as sombras queimadas da vegetação que desaparecera pela acção duma chama que irradiava uma temperatura avaliada em 1000 graus centígrados não permitindo que alguém se aproximasse a menos de uns trezentos metros sem qualquer protecção.
Porque o solo em redor da cratera, que se ia aos poucos alargando pelos desmoronamentos dos terrenos vizinhos, era de rocha calcária sulcada por inúmeras e minúsculas fissuras, apareciam aqui e além pequenas chamas, uns “foguinhos” como lhes chamávamos. E como nos divertíamos a abafá-las com as nossas botas, apagando-os temporariamente, porque em breve surgiam “milagrosamente” um pouco mais ao lado!
Com o decorrer do tempo tudo voltou à rotina normal e em breve tanto a minha permanência como a da aeronave deixaram de constituir uma necessidade pelo que abandonámos definitivamente a estadia no Pande que continuava a arder noite e dia.
Entretanto os técnicos que atalhavam aquele dantesco incêndio tiveram de abandonar a técnica inadequada proposta pelo apagador de fogos, o texano Red Adair e passaram a injectar cimento em toda a área de rocha calcária envolvente da cratera por onde se escapava o gás. Só assim, mercê de um trabalho lento, persistente mas decisivo conseguiram tapar a cratera e todas as fissuras dos solos envolventes e o incêndio extinguiu-se finalmente.
E com ele terminou também o espectáculo que ao longo daqueles três anos os beirenses se haviam habituado a comprazer, ao longo da estrada marginal que orla a margem esquerda do Rio Pungué, desde a Ponta Gea até ao farol do Macúti, com o clarão que a chama, lá de muito longe, naquelas noites límpidas projectava nas nuvens altas que pairavam por vezes sobre a região do Pande.
Já depois de ao fim de um ano ter abandonado os TAM e depois de deixar a Placo Aircraft Sales em Pretória entrei para a DETA, a então companhia de aviação comercial de Moçambique, em finais de1966.
E quando voávamos da Beira para Lourenço Marques, ainda durante bastante tempo, lá estava ela, aquela chama que teimava em assinalar aquele dia em que o gás, cuja existência todos nós ignorávamos, irrompeu do subsolo denunciando a sua existência ocultada, num incêndio a que agora apelidei de “O Inferno do Pande”. E sobre ela falava aos tripulantes com quem voava contando arrebatado o que vos acabo de relatar!
Extinto aquele inferno, foram-se aos poucos apagando da memória das pessoas todas as recordações que lhes sacudiram durante aqueles anos, a monotonia do quotidiano das suas vidas.
E foi por não poder aceitar o esquecimento a que este acidente foi votado que vos trouxe aqui hoje esta recordação para convosco a partilhar.


Terminada esta narrativa de certo modo diferente das outras, sobre a pista do Pande, anuncio-vos antecipadamente o tema da MEMÓRIA OITAVA: A pista do Zinave.


Até lá …

Bons voos.






O meu obrigada ao Cte. Primavera.

1 comentário:

Rui Sousa, Madeira Spotters disse...

Excelente relato!
Sem dúvida deveria ser uma visão fantástica. Ainda mais fantástico o facto de tais furos arderem durante tanto tempo. Dá-nos uma escala de grandeza que nos faz sentir muito pequeninos.
Quanto ao sr. Red Adair, já tinha lido acerca de algumas das suas "façanhas" mas é natural que não faça grande publicidade das menos bem sucedidas...hehe!