O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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24/08/07

354 - Venturas e Aventuras em Moçambique



Do livro de Cristina Malhão-Pereira recentemente publicado pela Editora Civilização, alguns excertos interessantes sobre a Aviação em Moçambique:
....o Zé (Comandante Malhão-Pereira, à altura Comandante da Capitania do Porto de Inhambane 1971/1975) concluiu que lhe era muito útil tirar o brevet. Decidiu-se pois e passou a ter aulas de pilotagem. As lições praticas eram de manhã muito cedo e as teóricas à noite. O grupo de alunos era diminuto, apenas quatro, sendo um deles, o Fernando Farinha que era um construtor civil local, Os outros dois, uns jovens com vontade de mais tarde se tornarem pilotos comerciais.
O controlador aéreo de Inhambane era o Zagalo Paz, uma pessoa encantadora, óptimo profissional, exigente quanto a segurança, um rapaz muito bem-educado e que fazia bom ambiente, Os pilotos já antigos do Aeroclube (90 - 137), eram gente com vidas interessantes, Um deles era o Victor Nunes, pertencente a uma das famílias mais abastadas da região, donos de varias lojas e gente de trato agradável. Por todas estas razoes e também porque o Aeroclube se situava num local muito bonito e tinha uma cafetaria simpática, em breve grande parte dos nossos dias se passavam nessa zona.
Mal nos foi permitido. Ou seja assim que o Zé foi largado (isso aconteceu após sete horas a treinar com o instrutor), começamos a voar no delicioso Piper Cub. Era esse avião, tal como os outros, pertença do Aeroclube. Era um aparelho muito gracioso mas rudimentar e só podia transportar duas pessoas. O piloto seguia na dianteira a dirigir, o instrutor/passageiro sentava-se quase colado às costas do primeiro, ficando as duas pessoas completamente espartilhadas pelas paredes do avião, que eram em tela.
Cada vez que em Inhambane havia fosse que festival ou actividade fosse, a casa da Capitania enchia-se com visitas.
Dessa vez vieram todos os que gostavam de aviões. Foi um Festival bastante importante. Tivemos pára-quedistas, incluindo a celebrada Carmo Jardim, (237) um rally aéreo, vários tipos de aviões executando habilidades, helicópteros e acrobacias. (303)
Eu consegui ser convidada para um passeio de helicóptero. Foi uma emoção, uma vez que o aparelho era quase todo em vidro* (200). Também andei de Harvard mais conhecido por T-6, que era o avião que se usava em combate nessa época no Ultramar.
No entanto o máximo dos máximos foi a minha experiência em acrobacia. Largamos, só o piloto e eu, sentada ao seu lado ** (74). Já lá em cima começamos por executar figuras fáceis. O piloto ia-me olhando e perguntando se eu queria continuar. De looping em perda, chegamos ao máximo das figurar acrobáticas. A minha cara eu não vi e portanto não sei, mas quando olhava para a cara do piloto, via-lhe a s bochechas todas repuxadas para trás devido aos G’s, e todo o seu rosto era uma sucessão de ondas de tremeliques. Medo não tive nenhum, antes pelo contrário, de cada vez que voávamos de pernas para o ar e o horizonte se invertia, eu achava fascinante. Só sei que quando pousamos, correram para a porta do avião varias pessoas, incluindo o serviço de macas, pois julgaram que eu estivesse desmaiada. Foi a maior das surpresas, incluindo para o meu marido, ver-me sair pelo meu pé, sorridente e bem disposta.
Quando passei para o papel todas estas lembranças, embora muitas estejam por mim fixadas em diários da época, ate eu própria comecei a duvidar das minhas memorias......Muitas destas historias como é o caso desta ultima, graças a Deus têm a confirmação de terceiros, ou seja dos outros intervenientes na acção. Há pouco tempo falando coma a Patucha Jardim, ela facilitou-me o contacto do piloto de acrobacia com quem esta ultima aventura se passou, ou seja, o Sr. Rui Monteiro (60). Teve este senhor a amabilidade de vir aqui à nossa casa de Caxias e de connosco relembrar todas estas façanhas e de me trazer a sua caderneta de voo, onde o meu nome está inscrito como passageira nesse memorável dia.
Dirigimo-nos no dia seguinte ao aeroporto onde apanhamos um avião para a Ilha do Ibo. Quem nos transportou foi um piloto muito simpático, alegre e bem disposto, o Zé Quental (196). Quando aterramos ao abrir a porta disse:
“Be very welcome to the Ibo International Airport”
Era pouco mais que um prado onde com dificuldade uns garotos evitavam que os rebanhos pastassem.
* Bell 47G5A da HEPAL
** Provavelmente atrás do piloto já que se trataria do “Chipmunk” CR-AEK do Aeroclube de Moaçambique

Obrigada Cte. José Vilhena pela cedência do texto e foto. E já agora pela paciência que tem comigo.

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