O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivo alheio algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

11/05/12

772 - Acidente do C9- APQ (ex. CR-APQ) em Cabora Bassa contada pelo Cte. Joaquim Maria Craveiro

O Grande Susto
Quarta-feira 15 de Abril de 1979, exatamente 4 anos e 51 dias após a independência de Moçambique (25 de Junho de 1975).
Foi um voo requisitado pelo Delegado da Aeronáutica Civil de Tete, onde o avião tinha a sua base. Era um bimotor Britten-Norman BN-2A-8 Islander com a matrícula C9-APQ (ex. CR-APQ).
O voo seria Tete / Fíngoe / Tete. No Fíngoe encontravam-se os passageiros que embarcaram no avião: 2 cavalheiros, 1 senhora e a sua filhita que não teria mas de 18 meses de idade.
A rota Tete / Fíngoe / Tete passa à vertical da grande barragem de Cahora Bassa e da cidadezinha do Songo que assiste o complexo da barragem.
No regresso que seria Fíngoe / Tete o voo terminou com uma aterragem de emergência dramática na pista do Songo.
Quando o avião sobrevoava Cahora Bassa a 7.500 pés de altitude, cerca de 4.700 pés sobre o terreno, o controlador do Songo disse-me algo que não entendi. Pedi-lhe que repetisse a mensagem, a “resposta” foi uma violenta explosão cujo clarão se refletiu nas fendas do pedestal ou caixa onde correm as manetes do gás, passo dos hélices e da mistura do combustível, dando a falsa impressão que algo teria estoirado dentro daquela caixa. Foi uma impressão de breves segundos. Quando olhei pelas janelas vejo o fogo na asa direita, o fogo todo “esticado” para trás devido à deslocação do avião. A base do fogo de cor laranja pálido, a parte posterior do mesmo azul pálido, quase a confundir-se com o azul do céu. Um espetáculo assustador!
Percebi de imediato que tinha sido atingido por uma antiaérea e que o controlador tentou avisar-me que o avião estava a ser alvejado.
Fiquei naturalmente assustadíssimo, plenamente convencido que eu e os passageiros teríamos as nossas vidas por minutos, condenados a sofrer queimaduras terríveis. Mas foi uma ideia muito fugaz e serenei logo de seguida, pensando que o fogo destruindo a estrutura da asa direita, esta seria muito em breve arrancada do avião e este entraria num parafuso vertical rodopiando descontrolado para o lado direito, despenhando-se violentamente no solo rochoso daquela região. A morte para todos os ocupantes seria instantânea, sem tempo para sofrer. Era uma consolação!
Reduzi as manetes do gás, tentei embandeirar o hélice direito, desconhecendo que este motor tinha sido arrancado da estrutura, cortei as misturas e fechei a seletora de gasolina do lado direito, iniciando uma aproximação para a pista do Songo. Não obstante o avião manifestar uma forte tendência para se inclinar para a esquerda, obrigando-me a grandes correções do manche para o contrariar, nunca me passou pela cabeça que o motor direito tinha sido arrancado pela antiaérea. A situação não se prestava a grandes reflexões e a preocupação era a de aterrar antes que o fogo cortasse cerne a asa direita.
Com a mistura cortada, o hélice esquerda continuava a rodar devido à pressão do ar, isto ajudou a uma rápida descida sem ganhar velocidade. Não meti Flaps pois receava que o avião tivesse qualquer comportamento imprevisível. Nalgumas fotografias nota-se o Flap esquerdo descido, mas isto deve-se à destruição pelo fogo.
Quando me encontrava perfeitamente estabilizado na final à pista, avancei a mistura esquerda a fim de coordenar a aproximação e aterragem com o motor esquerdo. Só que eu ignorava que o motor direito já lá não estava!
Quando senti o toque das rodas na pista, tive a preocupação de encurtar a corrida de aterragem a fim de abandonarmos rapidamente o avião, cuja asa direita continuava a arder. Bastou um ligeiro toque nos travões e aconteceu o imprevisto: uma brusca guinada para a esquerda, tendo a asa direita ganhado sustentação inclinando o avião para a esquerda. Ao nivelar o avião este foi de novo para o ar. Conduzi-o de novo para a pista, enquanto tentava encurtar a aterragem, manifestando o mesmo uma forte tendência para fugir para a esquerda. Receei que nos iriamos esmagar contra os rochedos que ladeiam a pista, tendo imobilizado o avião junto à berma esquerda da pista, abandonando todos os ocupantes de imediato. Os bombeiros chegaram assim que o avião se imobilizou, contudo não conseguiram dominar o fogo e o avião ficou irremediavelmente destruído.
Só depois de ter abandonado o avião reparei que o motor desaparecera e compreendi finalmente as tendências do mesmo: em voo inclinava-se para a esquerda por que lhe faltava o peso do motor direito, na pista fugia para a esquerda porque as rodas do lado esquerdo tinham a carga do motor desse lado, sendo a aderência dos pneus do lado esquerdo muito forte. Do lado direito as rodas não tinham a carga do motor respetivo e a aderência dos pneus à pista era muito fraca.
Em várias fotografias nota-se perfeitamente a ausência do motor direito.
O avião pertencia à COMAG (Companhia Moçambicana de Aviação Geral). Foi derrubado por elementos da Frelimo!... Julgavam tratar-se de um avião Rodesiano! E não foi caso único. Outros com menos sorte pereceram porque os operadores das antiaéreas julgaram que se tratasse de aviões Rodesianos! Os (ir)responsáveis não eram responsabilizados. Tudo ficava à sombra da guerra contra a Rodésia…
25 dias após este triste acontecimento, eu e mais dois pilotos, cada um com o seu avião, (aviões da COMAG, entenda-se) fugimos para Salisbury, atual Harare. Era um Domingo, 9 de Setembro de 1979. Contudo no período entre 15 de Agosto e 9 de Setembro ainda tive outro caso, felizmente sem consequências de maior. Foi num voo noturno da Ilha de Santa Carolina para Maputo com escala em Inhambane para reabastecimento. Quando aterrei em Inhambane alguns dos passageiros informaram-me que quando sobrevoávamos uma localidade iluminada cerca de 15 minutos antes de Inhambane, viram projéteis iluminados (tracejantes) dirigidos ao avião!
Pelo tempo de voo calculei que a localidade seria Massinga. Respondi-lhes que provavelmente estariam a tentar atingir o avião. Perguntaram-me se não seria perigoso prosseguirmos para Maputo, sosseguei-os dizendo-lhes que evitaria sobrevoar as localidades iluminadas ao longo da rota até Maputo, o que seria facilmente exequível sem grandes desvios e com as luzes de posição do avião apagadas. O voo efetuou-se sem mais incidente.
Voltando ao acidente em Cahora Bassa, muitas pessoas correram ao longo da pista para apoiarem eventuais feridos que não se encontrassem capazes de abandonar o avião. Contaram-me coisas curiosas! Enquanto o avião descia a arder, atiradores armados com metralhadoras atiravam para o mesmo. Com o avião já imobilizado na pista, esses mesmos atiradores correram agitadíssimos para o avião com o propósito de fuzilarem os seus ocupantes. Tiveram de gritar-lhes que o avião estava ao serviço de Moçambique. Fiquei com a impressão que os atiradores ficaram frustrados com a informação que lhes subtraiu o prazer de fuzilarem os ocupantes…
Pilotos de helicópteros que poucos dias após o meu sobrevoo noturno de Massinga estiveram nesta localidade a conversarem com os operadores as antiaéreas e contaram-me que os foram encontrar muito agitados e frustrados porque…Ah! Se eles tivessem a antiaérea numa certa e determinada posição, aquele avião que aqui passou à noite não teria escapado! E mostraram aos pilotos dos helicópteros o sítio ideal onde deveria estar a antiaérea.
Era assim Moçambique alguns anos depois da independência.
Observando-se com alguma atenção as fotografias, verifica-se que não obstante os depósitos de combustível se encontrarem dentro das asas, estas não arderam totalmente, a asa direita mais queimada do que a esquerda e a fuselagem à frente das asas totalmente destruída. Atrás das asas a fuselagem encontra-se igualmente destruída, tendo-se partido ao meio.

Faro, 7 de Abril de 2009
Joaquim Maria Craveiro
 











Ver outro artigo sobre este acidente aqui.

2 comentários:

José Vilhena disse...

A verdadeira odisseia do Cte. Joaquim Maria Craveiro contada na 1ª pessoa.
Só um piloto com as suas inexcedíveis qualidades profissionais conseguiria “terminar” este voo sem perdas de vidas humanas, um verdadeiro feito que merece a nossa admiração.
Outros infelizmente pereceram, graças a estes “erros grosseiros” que nunca tiveram os seus responsáveis punidos…
A nossa singela homenagem a este Grande Senhor da Aviação Moçambicana.

Ricardo Quintino disse...

Infelizmente tive um colega do Liceu, mais tarde piloto aviador de seu nome Jorge Guerra, filho do conhecido Guerra dono da TAM, que foi também abatido pela Frelimo sobre a barragem de Cabora Bassa quando se preparava para aterrar no Songo e que cujo corpo nunca foi recuperado do lago. Outro amigo meu, o José Pereira, piloto da TEXAFRICA, foi também brutalmente assassinado pela anti-aérea Frelimo, na aproximação à pista de Vila Pery.
Um abraço ao Comte. J. Craveiro e outro ao Comte. J. Vilhena por nos proporcionarem estes acontecimentos trágicos da nossa "exemplar" descolonização neste caso aeronáutica.