O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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21/05/11

747- Evacuações aéreas nocturnas



Em Moçambique, até 1966 as evacuações aéreas nocturnas de militares feridos ou doentes com gravidade eram realizadas pela Força Aérea Portuguesa que utilizava normalmente o Dornier DO-27. Acontecia por vezes que mesmo civis eram igualmente evacuados, sempre que o perigo de vida o justificava. Nestes casos o pedido era normalmente feito pela entidade administrativa, ou, quando se tratava de militares, pelo comandante da unidade militar para o respectivo Comando do Sector. Em qualquer dos casos era a indicação médica que determinava este pedido. Era um serviço muito estimado e apreciado pelas populações, simultaneamente enquadrado na perfeição nos programas de “Psico-Social” promovidos pelos militares e pelo governo época.

Durante a minha permanência no Aeródromo Base nº 5 (Nampula), de Junho de 1963 a Outubro de 1965 onde fui 2º Sarg. Piloto (Miliciano), efectuei algumas evacuações deste tipo, tanto de civis como de militares.

A partir de 1966 este serviço acabou. Desconheço quais as razões que justificaram tal decisão cujas consequências foram muito lamentadas por todos, civis e militares.

A determinação foi de tal modo radical que em 1968, era eu piloto da companhia de Táxis Aéreos TAN – Transportes Aéreos do Niassa, quando me foi pedida uma evacuação de Nova Freixo para Vila Cabral, ao chegar ao AB-6 verifiquei incrédulo que se tratava de evacuar dois soldados da Polícia Aérea feridos com gravidade por a uma rajada acidental com arma de fogo. Nunca imaginei que as restrições com estes voos nocturnos abrangessem o próprio pessoal da Força Aérea.

Como piloto civil e ex-piloto militar senti-me desconfortável com este voo, pois voava já na primeira condição e estava perante uma evacuação aérea de dois elementos da Força Aérea, entre duas das suas unidades, (AB-6 e AM-61). A imagem gloriosa e brilhante que eu detinha da FAP esmoreceu bastante naquela noite.

Os milhares de militares e civis distribuídos pelo imenso território Moçambicano, incluindo os da própria Força Aérea, não poderiam mais contar com o inestimável apoio da FAP nesta área tão sensível, ou não se tratasse da própria vida ou morte.

Só o recurso aos Táxis Aéreos poderia resolver este complicado problema, pois não havia mais ninguém para os ir lá buscar.

Foi assim que aconteceu. A responsabilidade que caiu sobre nós, o poder de decisão entre ir ou não ir, salvar ou deixar morrer, levou-nos muitas vezes a correr riscos difíceis de imaginar.

Ao longo desses sete anos foram centenas os militares evacuados nestas condições, havendo muitos que provavelmente ficaram a dever a própria vida ao eficiente e praticamente desconhecido serviço dos Táxis Aéreos e dos seus pilotos.

Foram menos de 40 os pilotos que durante tão largo período asseguraram este serviço, muitas vezes em condições extremamente perigosas e difíceis. Apesar de tudo, os acidentes graves com os seus aviões foram muito poucos. A grande maioria era experiente, conheciam bem o terreno e as pistas onde operavam diariamente.

Eram voos sem interesse comercial para as empresas, pois os seus ocupantes (pilotos e evacuados) bem como os próprios aviões operavam a descoberto de qualquer apólice de seguro.

Face a um imprevisto acidente, fosse ele um pequeno toque, a morte dos seus ocupantes ou a perda total da aeronave, o responsável era sempre e tão só o seu piloto, única pessoa a quem competia aceitar ou não a execução do voo.

Texto e foto de Vitor Silva

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