O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivo alheio algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

04/08/09

613-MEMÓRIAS PARA UM “BUSH PILOT”- Memória Sexta - CHITENGO


Extracto do mapa da Gorongosa em Moçambique. Demarcada a vermelho, pode-se ver a área correspondente ao Parque Nacional da Gorongosa que inclui o Vale dos Rios Punguè, e Urema. O Parque é limitado a ocidente pelo Planalto do Báruè e a oriente pelo Planalto de Cheringoma. Este vale faz parte do chamado Grande Vale do Rift, na fenda geológica da África Oriental.

MEMÓRIA SEXTA - CHITENGO

Sempre que vos escrevo sobre os meus voos do Táxi Aéreo em Moçambique, recordo o momento em que conheci o meu colega e Amigo, o Comandante Faria, naquele fim de tarde em Vila Junqueiro, quando já uma ténue cortina de humidade descia das encostas dos montes Namuli, diminuindo a visibilidade na pista do Gurué, à medida que se ia aos poucos condensando!
E quando já mal se divisavam os telhados das casas mais altas, o roncar dos dois motores do Aztec, anunciaram ruidosamente a sua aproximação. Eis que finalmente chegara o Faria, sorridente, feliz, embora cansado, após mais um dia a voar pelos céus de Moçambique.
Este sentimento de felicidade era o que de mais gratificante experimentavam todos aqueles que voavam incógnitos por aquele território imenso, quer no serviço normal de transporte de passageiros do táxi aéreo, quer voando em circunstâncias inacreditáveis, com a finalidade de prover os meios humanitários de auxílio às populações em dificuldades, como o transporte de mantimentos e medicamentos, ou para a evacuação de feridos ou de doentes.
Recordo particularmente a sensação de um tipo de vida relaxado e romântico, intensamente recompensado pelo agradável contacto com os passageiros e com a beleza dos elementos naturais, que faziam afastar para segundo plano as situações de perigo a que este tipo de voo muitas vezes conduzia.

Foi no seguimento destas considerações acima destacadas que me decidi a escrever hoje sobre a pista do Chitengo no Parque Natural da Gorongosa em Manica e Sofala.
E como não ficaria completa esta MEMÓRIA sem uma descrição da inconcebível beleza desta selvática região, irei tentar uma abordagem simples deste santuário da fauna e flora moçambicanas, socorrendo-me das imagens que ficaram na minha memória, completadas com algumas fotografias do site da Gorongosa (www.gorongosa.net).

A pista do Chitengo:

Fica situada na parte Sul da reserva da Gorongosa e serve o acampamento onde se hospedam os afortunados visitantes do Parque que a ele acedem utilizando o transporte aéreo.
Se olharem com atenção para o mapa da reserva, poderão ver que ela é constituída por um enorme território, que contém um impressionante vale com uma área aproximada de 7.800 Km2.
Este vale pertence a um enorme sistema geológico conhecido pelo Grande Vale da Fenda (Rift) Oriental, que se estende ao longo da África Oriental, desde a Etiópia até à região central de Moçambique, incluindo os grandes lagos africanos, como o Lago Alberto, o Lago Tanganica, o Lago Niassa agora designado por Lago Malawi, o Lago e o Rio Shire.
Este vale é limitado a Oeste pelo planalto do Báruè e a Nascente pelo planalto de Cheringoma.
A Noroeste deste extenso vale, avulta um impressionante maciço isolado com uma área de 600 quilómetros quadrados, donde sobressai altaneira a Serra da Gorongosa com o seu cume situado a 1863 metros de altitude.
Estes dois planaltos e o maciço da Gorongosa contribuem com a pluviosidade neles formada, para a existência de vários rios e riachos que alimentam a Bacia Hidrográfica do Lago Urema e do rio do mesmo nome e que cobre uma área impressionante.
Foi neste vale que, mercê das condições ecológicas particulares, se desenvolveu um ecossistema peculiar, que proporcionou o aparecimento de uma espantosa e complexa gama de vegetação que suporta por seu lado uma extraordinária e variada vida animal.
Neste paraíso encontramos, coloridas borboletas, coleópteros sarapintados de vivas e estranhas cores, répteis perigosamente belos, batráquios de radiosos coloridos, peixes proliferando nos lagos e nos rios, e várias espécies de aves raras como os gansos do Nilo e os grous coroados.
Foi contudo a divulgação da sua fauna que tornou mundialmente conhecida esta reserva, particularmente pela existência de uma variedade de mamíferos.
Refiro-me aos animais de grande porte, como os elefantes, ou aos mamíferos ungulados, como os búfalos, os hipopótamos, os rinocerontes, os bois-cavalo ou gnus, as zebras, os elandes, as impalas, os cudos, os javalis, ou ainda, com particular destaque, aos ferozes predadores como leões, leopardos, hienas, chacais e crocodilos.
É sobretudo esta diversidade e abundância da vida selvagem, que atrai grande número de turistas desejosos de se confrontarem como uma realidade rica de contrastes e de emoções que podem surgir a cada momento como o encontro inesperado de um elefante, ou de um búfalo ou de uma família de javalis.
Foi o que me aconteceu naquela manhã de Novembro.
Mas eu conto-vos como foi:
Cerca das 10 horas da manhã, chegaram à Beira, vindos no voo da DETA que fazia a ligação entre a capital, Lourenço Marques e a Beira um grupo de convidados da embaixada brasileira que nós já aguardávamos para os transportar para a Gorongosa.
Logo pela manhã, o meu patrão e Amigo Jorge Guerra havia distribuído pelos pilotos o serviço para o dia inteiro, cabendo-me a mim o transporte de um “funcionário menor” da embaixada e da bagagem colectiva, utilizando o já vosso conhecido Comanche, o CR-AGJ. Os três passageiros VIP seriam transportados no Twin Comanche, o mais recente bimotor dos TAM, pilotado como convinha pelo meu experiente “patrão”.
Depois de cumpridas as necessárias formalidades junto do Despacho da Aeronáutica Civil do Aeroporto da Manga, como o preenchimento do formulário em que os passageiros assumiam completa responsabilidade por quaisquer incidentes ou acidentes que resultassem da utilização da pista do Chitengo, depois de transferidas as bagagens dos passageiros para as duas aeronaves, dispusemo-nos finalmente para a partida, com a descolagem do Twin Comanche em primeiro lugar seguida da do Comanche já que era este o meu primeiro serviço para o Chitengo.
Durante os trinta minutos que durava este voo, descobria pela minha janela do lado esquerdo a paisagem de cor acastanhada que a savana emprestava aos arbustos sedentos da rara chuva que caía por essa altura e que abraçavam o solo arenoso tentando sugar a humidade que o cacimbo da noite depositara à superfície.
À medida que me aproximava do destino, começava-se a distinguir a silhueta majestosa da Serra da Gorongosa e já no vale do Rio Punguè quando este começa a inflectir para Poente, eis que do meio da vegetação surge, a uma centena de metros à minha frente, o Twin Comanche que me precedia.
Já sintonizados na frequência que utilizávamos para comunicar entre nós ouvi claramente o Jorge Guerra que me prevenia:
- Atenção Primavera. Tive de abortar a aterragem. Borreguei porque está um grupo de cinco búfalos na pista e só agora o guarda da reserva chegou para os afastar. Tenha cuidado! Vou completar a volta e regresso para aterrar atrás de si. Boa sorte.
Também não tive sorte porque os búfalos teimavam em regressar à pista onde um pouco de capim verde despertava o seu imenso apetite.
E tal como o meu patrão, tive de abortar a aterragem e prosseguir para uma nova tentativa.
Entretanto, reforçado o número de guardas com mais um elemento, conseguiram afastar definitivamente aqueles bichos de enorme porte da área de aterragem, o que permitiu que o Twin Comanche poisasse suavemente.
Prossegui eu então para a aproximação e quando já estava com o avião definitivamente configurado para a aterragem e a menos de 50 pés de altura, surge à minha frente, vindos da esquerda para a direita, um grupo de javalis atravessando a cabeceira da pista.
Não sei se alguma vez viram uma família de javalis de cor cinzenta, composto por um corpulento macho seguido da pequena fêmea e de cinco crias já adultas, todos com as caudas esticadas, apontando para o ar e correndo com passinhos rápidos e curtos como estes que aqui surgiram, indiferentes ao valente susto que nos causaram.
Pois é, uma pessoa fica gelada, mas não petrificada:
Num movimento decidido e rápido “puxei o manche à barriga” e o avião, beneficiando um pouco da velocidade que restava, sobe e passa sem lhes tocar, por cima da bicheza.
Suspirei aliviado.
E foi então que o meu passageiro da embaixada brasileira quebrou o silêncio e disse com um ar de perfeito conhecedor da fauna africana:
- Viu? … Viu aqueles leões?
- Quais leões, homem, eram javalis, emendei em tom agastado!
- Tem razão … eram javalis memo!

Caros amigos. Terminada esta prometida narrativa sobre a pista do Chitengo no Parque Nacional da Gorongosa anuncio-vos antecipadamente o tema da MEMÓRIA SETIMA: A pista do Pande

Até lá …
Bons voos.


O meu obrigada ao Cte. Primavera.

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