O Voando em Moçambique é um pequeno tributo à História da Aviação em Moçambique. Grande parte dos seus arquivos desapareceram ou foram destruídos e o que deles resta, permanecem porventura silenciosos nas estantes de muitos dos seus protagonistas. A História é feita por todos aqueles que nela participaram. É a esses que aqui lançamos o nosso apelo, para que nos deixem o seu contributo real, pois de certo possuirão um espólio importante, para que a História dessa Aviação se não perca nos tempos e com ela todos os seus “heróis”. As gerações futuras de certo lhes agradecerão. Muitos desses verdadeiros heróis, ilustres aventureiros desconhecidos, souberam desafiar os perigos de toda a ordem, transportando pessoas e bens de primeira necessidade ou evacuando doentes, em condições meteorológicas adversas, quais “gloriosos malucos das máquinas voadoras”. Há que incentivar todos aqueles que ainda possuam dados e documentos que possam contribuir para que essa História se faça e se não extinga com eles, que os publiquem, ou que os cedam a organizações que para isso estejam vocacionadas. A nossa gratidão a todos aqueles que ao longo dos tempos se atreveram e tiveram a coragem de escrever as suas “estórias” e memórias sobre a sua aviação. Só assim a História da Aviação em Moçambique se fará verdadeiramente, pois nenhum trabalho deste género é suficientemente exaustivo e completo. A todos esses ilustres personagens do nosso passado recente que contra tudo e todos lutaram para que essa história se fizesse, a nossa humilde e sincera homenagem.

A eles dedicamos estas linhas.

José Vilhena e Maria Luísa Hingá

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Quem tiver fotos e/ou documentos sobre a Aviação em Moçambique e os queira ver publicados neste blogue, pode contactar-me pelo e-mail:lhinga@gmail.com

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Por motivos alheios algumas das imagens não abrem no tamanho original. Nesse caso podem selecionar “abrir imagem num novo separador” ou “Guardar imagem como…”.

18/11/11

761 - TAN - Transportes Aéreos do Niassa

Inicia as suas operações com base em Vila Cabral a 1 de Setembro de 1968, contando para o efeito com cinco pilotos: Vitor Silva, C. Rodrigues, Leiria, Pinto e Lourenço.

Entre os seus accionistas iniciais estiveram Pio Alberto de Miranda Cabral, Luis de Miranda Cabral, Durval da Cruz e Silva, João Ventura Parreira, José João de Figueiredo Dionísio e Vitor Manuel Gonçalves da Silva.

Com uma frota inicial composta por dois bimotores Piper Aztec (CR-AHI e CR-AJA), passa a contar a partir de Agosto de 1969 com mais uma unidade deste tipo, o CR-AKQ.

Desafiando todos os obstáculos cria logo no seu inicio uma rede de operações que cobria 10.000 quilómetros de carreiras regulares, conseguidas com material algo obsoleto, um deficiente sistema de comunicações e pistas mal preparadas para uma operação segura.

Graças à tenacidade e teimosia dos seus responsáveis, a TAN consegue impor-se como um parceiro credível a todos os seus passageiros, civis ou militares.

A 11 de Abril de 1970 é uma das fundadoras do grupo EMAC – Empresa Moçambicana de Aviação Comercial SARL, por escritura publicada no Boletim Oficial da Província nº 32 – III Série, contado a partir daí com o suporte fundamental que este grupo lhe passou a dar.

Em 1971 é substituído o Piper Aztec CR-AHI pelo BN-2A-3 Islander CR-AMS proveniente da fábrica.

Ainda nesse ano são usados três BN-2A Islander CR-ALQ, CR-ALR e CR-ALS, pertencentes à EMAC.

Novos pilotos passam pelos seus quadros a partir de 1972, Artur Cardoso, F. Braga, Relvas, Águas, Pinto Ferreira, Lima, Fernandes e Fernando Subtil.

Em 1976 e após a independência de Moçambique, foi a empresa integrada na COMAG - Companhia Moçambicana de Aviação Geral.








CR-AMS


CR-AHI
CR-AHI - Foto enviada por Nuno Calhau
CR-AHI - Foto enviada por Nuno Calhau 
CR-AHI - Foto enviada por Victor Silva
CR-AJA. Foto de Joaquim Santos
Aterragem “sem trem” em Révia. Piloto Com.Rodrigues (Marinha)
Piper PA-23 Aztec 250B "CR-AJA"

CR-AJA
Aterragem “sem trem” em Révia. Piloto Com.Rodrigues (Marinha)
Piper PA-23 Aztec 250B "CR-AJA"
 Aterragem “sem trem” em Révia. Piloto Com.Rodrigues (Marinha)
Piper PA-23 Aztec 250B "CR-AJA"
Aterragem “sem trem” em Révia. Piloto Com.Rodrigues (Marinha)
Piper PA-23 Aztec 250B "CR-AJA"

CR-AJA

 Aeródromo de Vila Cabral

Aztec da TAN (Transportes Aéreos do Niassa) CR-AKQ albarroando a casota do lubrificantes da Shell em Vila Cabral
No ponto fixo matinal, no dia 5 de Junho de 1970, o mecânico altamente qualificado da FAP Adelino Jorge Martins Barros, depois de arrancar os motores, retirou os calços do avião que iniciou imediatamente uma rolagem relativamente lenta.
Tentou segurá-lo à mão, mas não conseguiu. Um dos hélices decepou-lhe o braço e a perna do lado direito do corpo.
A rolagem prosseguiu sem ninguém aos comandos, indo o avião embater na casota dos combustíveis e lubrificantes. Foi uma tragédia.
Fotos de Vítor Silva
Texto de Vítor Silva e Fernando Urgel Antunes


BN-2A-3 Islander "CR-AMS"
Segundo Vítor Silva o CR-AMS era tripulado (90% de certeza) pelo Artur Cardoso (o piloto mais internacional da TAN).
Dados de Cte. José Vilhena Foto de Vítor Silva

BN-2A-3 Islander "CR-AMS"






BN-2A. Foto de Simões Fernandes Manuel
 Aeródromo de Vila Cabral. Foto cedida por: Rui Campos


CR-AMS - BN2A-3 Islander

CR-AHI
Foto de Miguel Vinagre.
Piper PA-23 Aztec 250 "CR-AHI"e a aterrar o CR-AJH da CASS
Foto enviada por Nuno Calhau
BN-2A-8 Islander "CR-ANJ"
Espólio de António Mathias
Piper PA-23 Aztec 250D "CR-AKV"
Espólio de António Mathias
Piper PA-23 Aztec 250D "CR-AKV"
Espólio de António Mathias



14/11/11

760 - ETAPA - Empresa de Transportes Aéreos de Porto Amélia



Criada em 1968 por Rolando Mendes, substituiu a OCAPA – Organização de Carreiras Aéreas de Porto Amélia por extinção desta última.
Iniciou as suas operações com dois mono motores que rapidamente foram substituídos por bimotores, equipamento mais adequado para a sua operação.
Fazia parte do grupo EMAC – Empresa Moçambicana de Aviação Comercial SARL, conjuntamente com a TAZ – Transportes Aéreos da Zambézia, TAC – Transportes Aéreos Comerciais e TAN – Transportes Aéreos do Niassa.
Um grave acidente ocorreu a 29 de Março de 1974 em Mueda perdendo nele a vida o piloto Carlos Machado da Cruz e a aeronave Rockwell 500S Shrike Commander “CR-AOC”.
Fizeram parte dos seus quadros os pilotos: Rolando Mendes, Olímpio Craveiro, Nuno Figueiredo, José Bacelar, José Quental, Sá Marques, Guilhermino Silva, José Eduardo, Ribeiro, Carlos Machado da Cruz, Joaquim Craveiro, Artur Cardoso, Cunha Alegre, Fernando Azevedo, Eva Vaz e António Coelho.
Em 1976 e após a independência de Moçambique, foi a empresa integrada na COMAG - Companhia Moçambicana de Aviação Geral.






CR-AKD

CR-AKL

CR-AMG

CR-AOO-Foto de Luís Rebelo

CR-AQK-Foto de Luís Rebelo

CR-AKD em Nangolo (1970) - Foto de João Ribeiro Silva


Foto enviada por António Coelho, autor da foto desconhecido.
CR-AMV - BN-2A Islander
Foto de António Sá
CR-AMV - BN-2A Islander
Foto de António Sá
 Beechcraft 58 Baron "CR-AQK"
Espólio de António Mathias
 Rockwell 500S Shrike Commander
Destruido em Mueda a 29/03/1974 / Piloto Carlos Fernando Machado da Cruz (Pachancho)
Espólio de António Mathias
Rockwell 500S Shrike Commander "CR-AOO"
Espólio de António Mathias
Beechcraft 58 Baron "CR-AQK"
Espólio de António Mathias
Cte. Olimpio Craveiro
Cte. Olimpio Craveiro 

Carlos Machado da Cruz
@ForEver Pemba.
Carlos Machado da Cruz
@ForEver Pemba.
Carlos Machado da Cruz
@ForEver Pemba.

24/10/11

759-MEMÓRIAS PARA UM “BUSH PILOT” - MEMÓRIA DÉCIMA QUINTA

DE INHAMINGA A LISBOA, PERDEU-SE UMA VIDA!

Aquele sábado amanhecera mais quente que o normal. A humidade, muito perto dos cem por cento, tornava os corpos suados pegajosos à roupa lavada que vestíramos logo pela manhã.
As nuvens já desenvolvidas com o nascer do dia, avolumavam-se para os lados da Serra da Gorongosa anunciando uma possível tormenta para o final do dia.
No nosso escritório dos TAM no aeroporto da Beira, num ambiente refrescado pelos aparelhos de ar condicionado que se afadigavam em tornar a atmosfera agradável, esperávamos a chegada dos clientes para os vários voos já programados.
Nessa manhã surgiram vários pedidos de fretamentos para Quelimane, o que era uma situação normal já que os lugares disponíveis nas carreiras da DETA, quer no Dakota quer no Friendeship, num total de pouco mais de sessenta passageiros, não respondiam aos pedidos de reservas solicitadas diariamente. Recordo que o Boeing 737 com uma capacidade próxima dos cem passageiros, adquirido pela transportadora moçambicana, só começou a operar em princípios de 1970.
Os passageiros, ou porque já não chegaram a tempo de adquirir com antecedência os bilhetes, ou porque, por qualquer motivo imprevisível perderam a ligação com a carreira da DETA, surgiam logo pela manhã no nosso escritório que se apressava sempre a solucionar os problemas individuais.
Foi o que aconteceu com o passageiro que transportei nesse dia até Quelimane: um engenheiro da Sena Sugar States nosso cliente habitual que perdera a ligação da carreira normal da DETA.
Voávamos já a cerca de trinta minutos da descolagem da Beira e a uns cinco mil pés de altitude quando ele num piscar de olho me pergunta:
- Primavera. Será que podemos ir lá abaixo (referia-se junto ao terreno) para vermos caça?
- Sabe engenheiro, nesta rota não há muito que se veja, tirando um ou outro crocodilo e umas quantas garças ... se fosse na habitual para Marromeu!

Ainda não vos havia revelado mas de certo já o imaginaram, que num ou noutro fretamento, satisfazíamos por vezes os pedidos de um passageiro mais interessado em ver a caça que abundava sobretudo nas rotas da Beira para o Luabo ou para Marromeu.
Na verdade, nas pequenas lagoas ou nos charcos que permaneciam após as cheias do rio Zambeze, que transbordando as suas margens inundavam vastas áreas das planícies ou tandos do Luabo e Marromeu, podíamos ver crocodilos, um ou outro hipopótamo solitário e sobretudo aves como garças, pelicanos e corvos marinhos.
Mas era sobretudo na orla da floresta, já em terreno mais seco que abundavam sobretudo as manadas de elefantes de búfalos e de bois-cavalos.
É claro que esta prática pouco ortodoxa de voo requeria uma discrição da parte do passageiro que de resto merecia antecipadamente a nossa confiança.

Mal poisara o avião na pista de Quelimane e quando me dirigia já para o estacionamento, a torre de controle contactou-me para me informar de um pedido urgente para a evacuação em maca, de um queimado grave, de Inhaminga para a Beira.
Tratava-se de um acidente decorrente da explosão do depósito de uma “geleira” a petróleo que queimara o rosto e toda a parte anterior do corpo de um jovem alferes do exército numa extensão de mais de setenta por cento do seu corpo.
De certo repararam que utilizei a palavra “geleira” para designar o que habitualmente se apelida de “frigorífico”.
Por isso, antes de continuar a narração daquele acidente permitam-me que explique esta aparente falta de conhecimento da língua portuguesa.

Nascido em Moçambique, mais propriamente em Lourenço Marques, desde cedo aprendi a usufruir os benefícios dos “gelados” para refrescar-me nos dias de calor que por lá se fazia sentir!
Naquele tempo em que eu era um “mufana” (e já lá vai tanto tempo!), para se conservarem frescos as bebidas ou os alimentos, utilizavam-se umas caixas de madeira forradas a folha-de-flandres onde se colocavam uma ou mais barras de gelo.
Estas barras de gelo eram compradas na “Fábrica Victoria” ou então, quando em pequenas quantidades, eram vendidas porta a porta num camião “Chevrolet” de cor amarela cujo motorista, o Sr. Penetra, anunciava com antecedência a sua chegada, com uma buzina que emitia um som rouco mas forte.
Ao ouvi-la, a criadagem corria para junto da caixa do camião cujo taipal traseiro se abria e expunha uma série de barras de gelo.
- faz favor ... quero um escudo de gelo! – pedia um.
- eu quero dois e quinhentos! - acrescentava outro.

À medida que recebia os pedidos, o ajudante do Sr. Penetra picava a superfície do gelo com um cinzel afiado de modo a satisfazer as quantidades solicitadas.
Era então aí que nós, os miúdos das redondezas, aguardando silenciosamente o momento exato, disputávamos conjuntamente com os criaditos mais novos os fragmentos de gelo que se espalhavam pela caixa do camião.
Com a água do gelo que se ia derretendo, limpávamos a areia e os fiapos das serapilheiras utilizadas para embrulhar aquelas barras e sorvíamos deleitados o fresco prazer daqueles gostosos momentos.

Com o passar dos anos aquelas pequenas caixas onde se conservava o gelo foram-se transformando e aumentando de tamanho até que finalmente se construíam armários de dimensões razoáveis onde se depositavam simultaneamente várias barras de gelo.
Precisamente porque continham gelo e nelas se colocavam as bebidas para serem consumidas muito frescas, passou-se a designar de “geleiras” estes conjuntos de armários, de modo que, quando qualquer um de nós pedia um copo de “água gelada”, referíamos sempre à água fresquinha que bebíamos, conservada fresca naquelas caixas.
Como curiosidade das ”geleiras”, acrescento que era frequente nos dias de festa encher-se uma banheira com barras de gelo onde se colocavam as bebidas para serem depois servidas “fresquinhas”.
Na verdade o gelo e as coisas geladas constituíram sempre uma atração para toda a gente sobretudo para os mais novos!
– Mãe compre-me um “ice cream”! – gritava o miúdo agarrado-se às saias da progenitora!

Ainda sobre o gelo e as coisas geladas, gostaria de partilhar convosco algo de interessante que ocorria quando nós, já mais crescidos, frequentávamos agora o nosso Liceu.
Sempre que, por volta do meio dia, ao soar da campainha junto à reitoria, cruzávamos o portão da entrada em alta gritaria de manifesta satisfação pelo fim de mais um dia de aulas, corríamos para um encontro com alguém muito especial que nos proporcionava momentos de particular contentamento.
Lá fora junto ao passeio fronteiro à entrada do liceu, já nos aguardava “o sócio”:
- Um homem negro, de rosto marcado por sinais deixadas pelo sarampo contraído na sua juventude, vestindo uma branca “cabaia” que lhe tapava o corpo até aos pés e a cabeça coberta por um “cofió” impecavelmente branco, apoiando-se no seu carrinho do “ice cream”, onde aquela hora da manhã já não restava nem um pedaço do gelado. Sobravam apenas pedaços de gelo misturados com sal, que esticava a sua duração sem os deixar derrete-se facilmente.
O “carrinho” de cor branca, pintado com sugestivos desenhos coloridos que despertavam incontidos apetites à miudagem, estava defendido dos raios escaldantes do Sol do meio dia por uma coberta de lona branca com uns folhos arredondados cuja sombra se projetava sobre a sua superfície.
E era ali que nós colocávamos as nossas pastas para recebermos depois, das mãos do “sócio”, os pedaços de gelo com fragmentos de sal, chupando e sorvendo o líquido fresquinho, enquanto empurrávamos alegremente o carrinho pelos longos declives da avenida 24 de Julho, minorando durante uns poucos quilómetros o trabalho do nosso amigo vendedor de gelados que lá na retaguarda fechava sorridente aquele cortejo jovial e ruidoso.

Tempos depois aquelas referidas “geleiras” foram substituídas por outras mais sofisticadas feitas de metal e plástico, que aproveitavam o calor da combustão do petróleo para conservarem os alimentos e para transformarem em gelo a água colocada em pequenas “cuvetes”.
Estas “geleiras” possuíam um depósito metálico na sua parte inferior que era abastecido com petróleo e se destinava a alimentar a chama de um pavio mergulhado naquele líquido combustível. O calor assim produzido fazia circular um gás que se expandia por um sistema de serpentinas e cujo arrefecimento se transmitia a uma câmara “frigorífica” onde se produzia depois o gelo.

Ora foi uma “geleira”, ou melhor, um “frigorífico” como o descrito trabalhando a petróleo, que provocou o acidente que me levou com muita urgência até Inhaminga.
O depósito, em vez de petróleo, teria sido indevidamente atestado com gasolina que, embora em pequena quantidade, foi suficiente para provocar uma explosão logo que o jovem alferes, ao riscar o fósforo para acender o pavio incendiou os gases libertados.
Foi tão violenta e repentina a explosão que destruiu a frágil cozinha e o combustível incendiado atingiu de imediato a face e toda a parte anterior do corpo provocando-lhe graves e dolorosas queimaduras.

Cheguei a Inhaminga em pouco mais de quarenta minutos e já me aguardavam na pista o médico e o enfermeiro.
O paciente estendido numa maca coberto com um lençol fino que o protegia dos raios inclementes do Sol, gemia de modo imperceptível e quando me abeirei dele, fixou-me com um olhar carregado de interrogações procurando uma qualquer reação minha.
Sem perda de tempo desmontamos os encostos dos bancos traseiro e dianteiro de maneira a acomodar a maca que foi colocada no espaço junto ao meu banco depois de ter ocupado o meu lugar aos comandos do avião, o já vosso conhecido “comanche” CR-AGJ.

- Sr. Primavera - alertara o médico num tom que denotava enorme preocupação sobre o estado do acidentado e de modo a não ser por ele ouvido - o nosso alferes foi sedado de modo a aliviá-lo das dores que o atormentam.
O seu estado geral está deveras fragilizado pelo que lhe peço que voe o mais baixo que lhe for possível pois temo que o coração deste jovem não aguente!

A acompanhar este acidentado viajou um sargento enfermeiro ajoelhado atrás do meu banco a que se segurou durante a descolagem e sempre que alguma turbulência lhe fazia perder o equilíbrio. A tempos regulares molhava com um líquido fresco os lábios ressequidos e inchados do jovem alferes.

Voamos cerca de quarenta e cinco minutos sobre a floresta aquecida pelos raios do Sol que no zénite aqueciam impiedosamente o ar em que nos deslocávamos provocando uma certa turbulência.
A cada movimento do avião os queixumes do meu passageiro aumentavam de intensidade o que me obrigava a olhá-lo impotente no alívio do seu sofrimento.

E naqueles longos minutos que mais me pareceram uma eternidade, sempre que desviava o meu olhar dos instrumentos era para olhar aquela cabeça deitada ali ao meu lado, coberta por uma cabeleira crestada pelas chamas de que não se conseguia perceber qual a sua verdadeira cor de tão negros e encarapinhados que ficaram os seus cabelos.
Só uns olhos raiados de um vermelho intenso me interrogavam num longo silêncio que só foi quebrado quando, já com o avião estacionado na placa, balbuciou num sussurrar mal perceptível:
- Senhor piloto ... acha que me salvo?
- Amigo. Conseguiu chegar aqui o que foi notável. Agora já está em mãos que irão tratar de si !

Retirada a maca do meu avião seguiu de imediato para o Boeing 707 da FAP que aguardava somente a chegada daquele passageiro para descolar com destino a Lisboa.
Ficara só no habitáculo do meu “Comanche”, extremamente pálido, quando ouvi uma voz feminina falar-me de mansinho:
- Senhor Primavera. Vá para casa ... vá descansar ... vejo pela sua cara que acaba de passar por muito ...

Uma semana depois aquela mesma voz que me confortara à chegada do meu voo de Inhaminga, anunciava-me agora numa voz dorida:

- Senhor Primavera o jovem alferes que evacuou de Inhaminga a semana passada não resistiu às graves queimaduras e acaba de falecer no hospital militar em Lisboa.


DE INHAMINGA A LISBOA, PERDEU-SE UMA VIDA!



Vila de Parede 15 de Outubro de 2011


24/09/11

757-CR-ADG, CR-ADH e CR-ADM



CR-ADG

CR-ADH

CR-ADM

CR-ADM

CR-ADM

CR-ADM

Estas fotos foram enviadas por Jorge Bravo, do blogue Petromax, acompanhadas por este texto:

"Por isso, o mínimo que posso fazer é enviar-vos as fotos que anexo, para as publicarem (se possível, com referência ao "autor", meu Pai, José dos Reis Bravo), sem embargo de as poder vir eu também a publicar oportunamente. Os locais mais prováveis são os aeródromos de Nampula e do Lumbo. É difícil datá-las, mas por informação indirecta estou certo de que lá chegarão (agradeço-lhes esse "encargo")."

16/09/11

756-MEMÓRIAS PARA UM “BUSH PILOT” - MEMÓRIA DÉCIMA QUARTA


Quelimane – Foz do Rio do Bons Sinais

QUELIMANE: NASCE UMA ESPERANÇA

Caros leitores amigos:

Recordam-se de certo da MEMORIA DECIMA TERCEIRA e da história daqueles dois jovens amantes, Romeu e Julieta, que transportei naquela viagem de avião do Inhassoro para o Dondo e que, como então vos relatei, descobriam fascinados os encantos do seu grande amor.

Entretanto nas nossas instalações dos Táxis Aéreos (TAM) no aeroporto da Manga, os dias sucediam-se tranquilos no ramerrão da nossa actividade, em que os voos solicitados se cumpriam como uma regularidade a que já havíamos habituado os nossos clientes e amigos.

Certa manhã, mal acabáramos de abrir a porta do escritório quando a calmaria usual foi alterada pelo toque insistente da campainha do telefone que nos ligava directamente ao serviço do despacho do aeroporto. Tratava-se de um pedido urgente de um voo com destino a Quelimane para evacuar para o hospital da Beira, uma parturiente cujo trabalho de parto fora inesperadamente interrompido!
Segundo nos informaram, a criança que se preparava para fazer a sua aparição neste mundo que vinha partilhando com a mãe nos nove meses em que habitara o ventre materno, resolveu, por uma qualquer razão que não nos souberam explicar, adiar a sua aparição.
Porque não tinha qualquer voo previsto na agenda dos serviços para esse dia, fui eu o indigitado para a sua realização.
Como acontecia nestes fretamentos solicitados sem hora ajustada, cheguei adiantado a Quelimane, aguardando por isso na placa de estacionamento junto à velha aerogare do aeródromo, a chegada dos meus passageiros.
Não tive de esperar muito tempo porque pouco depois, surgiu uma ambulância que chegou apressada, transportando no seu interior demasiado acanhado para acolher tanta gente de uma só vez, a parturiente, o médico e o marido que não conseguia disfarçar uma enorme ansiedade.
Tratava-se de um jovem casal. Ele, funcionário da Madal uma sociedade concessionária de uma extensa plantação de chá, que se estendia pela encosta sul do monte Mabú junto à vila de Tacuane, na província da Zambézia. Ela, dona de casa, cuidando de uma pequena moradia cedida pela empresa, com a ajuda de dois empregados negros, um mainato e um moleque para os pequenos trabalhos, escolhidos entre os mais jovens dos “contratados” da Madal.
Porque se aproximava o fim da gestação e sobretudo porque se tratava do seu primeiro filho, decidiram deslocar-se para Quelimane onde com toda a certeza disporiam de uma assistência que só um hospital lhes poderia oferecer, o que em boa hora o fizeram como agora se apercebiam.
Entretanto a aeronave em que me deslocara, não foi uma aposta acertada para este serviço já que não seria a mais adequada para o transporte daquela passageira.
Na verdade, sendo o Piper Comanche um avião com uma asa baixa fixa à parte inferior da fuselagem, obrigaria a passageira a subir para a sua parte superior, de forma a utilizar a única porta de acesso ao habitáculo, a porta do lado direito.
Para uma pessoa sem quaisquer limitações aquela manobra seria fácil de efectuar, obrigando-a apenas a um pequeno esforço de elevação da respectiva perna até à altura de uns poucos centímetros, utilizando ainda um pequeno degrau intermédio para a auxiliar nesse esforço.
Como podem imaginar, a situação da parturiente era deveras delicada dada a posição do feto não lhe permitia um normal movimento das suas pernas.
Num esforço conjunto, o marido, eu e o motorista da ambulância, tivemos de a levantar para a parte superior da asa, após o que a senhora se conseguiu acomodar no banco traseiro.
Só depois entramos eu e o marido que se sentou no banco da frente ao meu lado direito.
Mal nos havíamos instalado no avião e já a passageira me interrogava preocupada:
- Senhor piloto. Tem sacos de enjoo a bordo?
- Sim – respondi, apontando para a bolsa existente nas costas do meu assento mesmo à sua frente …- é só retirá-los em caso de necessidade.
E a senhora, algo preocupada, acrescentava timidamente:
- Não é para mim mas para o meu marido que enjoa durante o voo!

O médico que acompanhou a parturiente até ao aeródromo, dada a condição precária em que esta se encontrava, recomendou-me para que, tanto quanto possível, efectuasse o voo evitando aquilo que na gíria se designa por “poços de ar”.
Não foi difícil satisfazer esta recomendação já que numa manhã como a que se apresentava, fresca e sem vento, decidi voar junto à extensa costa que se estende desde o estuário do Rio dos Bons Sinais em Quelimane, até ao estuário do Rio Pungué na cidade da Beira, durante cerca da hora e meia que iria durar o voo.
Descolamos para Norte, e depois de tomada altura conveniente iniciei uma volta suave pelo lado direito em direcção aos Sul, sobre o imenso palmar que se prolongava desde os terrenos anexos ao aeródromo até junto ao mar, fazendo “jus” ao título que lhe atribuíam de “terceiro maior palmar em todo o mundo” tal era a sua extensão que pintalgava de verde todo o terreno sobrevoado.
Em pouco mais de vinte minutos voávamos já sobre o Chinde, uma vila localizada no braço mais a norte do grande delta do Rio Zambeze que evoluía preguiçosamente por entre os meandros da grande planície de Marromeu despejando na corrente do Canal de Moçambique, parte da água que ciosamente transportava desde a sua nascente na Zâmbia, numa distância de 2.750 km.
Segundo referências dos antigos escritores, o rio dos Bons Sinais já foi em tempos muito recuados um braço do rio Zambeze.

Este rio exerceu desde sempre um enorme fascínio entre os vários exploradores e missionários europeus que o percorreram desde os anos idos de 1840 a 1890.
Foi sem dúvida David Livingstone, médico e missionário escocês, explorador ao serviço da Royal Geographical Society, o europeu que mais contribuiu para o conhecimento dos territórios e dos povos africanos da África central e do Sul.
Em 1842, iniciou uma expedição de quatro anos com a finalidade de encontrar uma rota que partindo do Alto Zambeze chegasse até à costa oriental africana.
Em Maio de 1856 atingiu finalmente a foz do Rio Zambeze, tornando-se o primeiro europeu a atravessar a África meridional em toda a sua largura. Em 1855 e durante aquela travessia, Livingstone descobriu uma espectacular cachoeira que baptizou de 'Victoria Falls" em homenagem à Rainha Victória.

Devo aqui lembrar com o devido merecimento, os nomes dos não menos famosos exploradores portugueses, Hermenegildo Capêlo e Roberto Ivens que, com um propósito diferente das expedições de Livingstone, partiram de Moçâmedes em 29 de Abril de 1884 e chegaram finalmente a Quelimane em 21 de Junho de 1885, numa jornada de 14 meses que iriam qualificar como um "inferno no interior africano, durante o qual a fome, o frio, a natureza agreste, os animais selvagens, a mosca tsé-tsé, puseram em permanente risco a vida daqueles exploradores”.
Ao longo de toda a viagem, Roberto Ivens escreve, desenha, faz croquis, levanta cartas enquanto Hermenegildo Capelo recolhe também espécimes de plantas, rochas e animais, num contributo científico ao legado existente na Sociedade de Geografia de Lisboa.
Este grandioso esforço de todos aqueles exploradores é tanto maior se considerarmos o enorme percurso deste imenso rio que na sua longa corrida atravessa uma pequena parte das terras de Angola logo após a sua nascente na Zâmbia e correndo apertado entre os territórios da Zâmbia e do Zimbabwe, apressa-se depois a alcançar o território de Moçambique junto ao Zumbo percorrendo depois mais de oitocentos quilómetros até se misturar com as águas do Oceano Índico no canal de Moçambique servindo-se dos três grandes braços que compõem o seu enorme delta.
Para trás ficam testemunhos de rara grandeza como as belas Cataratas de Vitória e as imensas albufeiras de Kariba e de Cahora Bassa.
Num outro tempo não muito distante, ficaram também para trás os testemunhos de um rio por onde os mercadores portugueses infiltrados no império dos Monomotapas, comerciaram o ouro, marfim e escravos em troca de panos e missangas que recebiam de Lisboa e da Índia.
Todos estes produtos eram transportados rio abaixo até ao porto de Quelimane no rio dos Bons Sinais onde eram embarcados para novos caminhos como por exemplo a ilha de Cuba que até ao ano de 1850 foi o principal destino dos escravos provenientes da Zambézia.
O rio Zambeze exerceu sempre desde os tempos mais recuados um fascínio em quem o contemplava, desafiando-os a descobrir o feitiço que os levava a apaixonarem-se por ele.
Que o digam os jovens pilotos que o sobrevoavam fascinados com os segredos que desvendavam sempre que o contemplavam lá do alto das suas máquinas voadoras ou quando percorriam em voo rasante as cachoeiras de Cahora Bassa ou as da serra da Lupata, com a asa do lado da volta quase roçando a água que saltava enfurecida por entre as rochas que afloravam no leito do rio enquanto a outra apontava para as altas serranias que nos olhavam com ar de censura pelo nosso atrevimento!

A nossa viagem prosseguia entretanto em excelentes condições. Os passageiros dormiam vencidos pela agitação que a anormal conjuntura lhes provocara! O vento limitava-se a insuflar uma ligeira brisa e o calor ainda não apertava àquela hora da manhã porque voávamos sobre o mar, junto à costa.

Se o voo se realizasse por volta das três horas da tarde a situação não seria de certo a mesma porque a região do delta do Zambeze era uma zona onde se formavam e permaneciam estacionárias enormes nuvens de desenvolvimento vertical, os cúmulo-nimbos, que descarregando violentas trovoadas eram obrigatoriamente obstáculos a evitar.
Nas aeronaves maiores, a detecção dessas nuvens fazia-se com a utilização dos radares de tempo.
Para nós Bush Pilots, voando pequenas aeronaves desprovidas dessas “modernices tecnológicas”, era difícil reconhecer a sua posição de modo a evitá-las. Felizmente que a nossa experiência permitia-nos escapar sem sensíveis danos provocados pelo granizo ou pela turbulência estimulada pelos fortes ventos existentes no interior dessas nuvens.
Confesso-vos muito particularmente, que o “melhor acessório” dos nossos “radares especiais”, era um par de óculos da marca “RayBen”!
É que as suas lentes coloridas de um verde-escuro permitiam-nos distinguir, no meio das nuvens que nos envolviam, os contornos das zonas mais densas, mais carregadas de precipitação e providas de maior actividade, facilitando evita-las com segurança.
Esta nossa “técnica” era complementada com o conhecimento do comportamento das agulhas das rádio-bússulas: na presença de um relâmpago, as agulhas moviam-se na direcção da fonte eléctrica apontando assim para o local onde se encontravam os cúmulos-nimbos, isto é, o obstáculo a evitar.

Entretanto, preocupado com os passageiros espreitei o rosto dos nossos viajantes, que não despertaram do seu sono durante todo este tempo que vos tenho falado deste tão grande quanto belo rio, o Zambeze, que divide fisicamente o território de Moçambique em duas partes, Norte e Sul.

Foi já muito perto da Beira que senti a mão da minha passageira pousar delicadamente no meu ombro, sorrindo feliz, no que percebi ser um agradecimento pelo cuidado com que efectuara aquele voo tão especial.
Sorri animado com o seu comportamento corajoso que revelara durante aquelas quase duas horas de voo e voltando-me para a frente do avião, apontei para a cidade da Beira junto ao rio Pungué que se divisava já ao longe.
Pouco passava do meio-dia quando aterrámos finalmente no aeroporto da Manga no termo de uma viagem tranquila e onde já nos esperava uma ambulância com uma equipa médica que encaminhou de imediato a parturiente para o hospital da Beira.

Nessa mesma tarde nascia uma linda menina de farto cabelinho preto a quem apelidaram de ESPERANÇA pela convicção com que o jovem casal confiou no desenlace feliz daquele inoportuno incidente.

Parede 28 de Agosto de 2011

26/08/11

755-75º Aniversário da DETA


Comemora-se hoje 26 de Agosto de 2011 o 75º Aniversário da fundação da DETA - Linhas Aéreas de Moçambique.

Foi a 26 de Agosto de 1936 que a DETA – Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos foi criada pelo Diploma Legislativo n.º 521, publicada no Boletim Oficial n.º 34 - 1ª série da Colónia de Moçambique, com a assinatura do Governador-geral interino em exercício José Nunes de Oliveira.

Muitos anos de uma longa história recheada de factos e marcos importantes de uma companhia que foi pioneira em muitas áreas.

Neste momento resta-nos homenagear e honrar a memória de todos os que nela serviram, os que felizmente estão entre nós e os que já partiram para outros voos. A estes a certeza de que não serão esquecidos.

O seu esforço, abnegação e teimosia tornaram possível que a DETA nascesse, crescesse e se transformasse na companhia que ainda hoje transporta nas suas asas o país a que pertence.

O Voando em Moçambique continuará a pugnar para que a história da DETA não seja esquecida.

22/08/11

754- UMA TRAGÉDIA EM FIM DE SEMANA


DO-27 (3449)
Passaram quase cinquenta anos; para mim foi ontem!
Tinha chegado a Mueda a meio da tarde. Regressar a Nampula fazendo mais duas horas e tal de voo a somar às três e meia que já tinha voado sob áspera turbulência, não era coisa que me entusiasmasse. Era sexta-feira e o avião não fazia falta na Base. Podia ficar.
Pelo posto de rádio comuniquei a decisão. Jantámos com gosto, bebemos bem e perdi ao poker. Quando acabámos de jogar já passava das duas.
No dia seguinte, 16 de Maio de 1964, efetuava sem pressa a inspeção ao “meu” DO-27 (3437) preparando o voo de regresso a Nampula, quando chegou um pedido de evacuação urgente. Havia vários feridos, resultado dum acidente grave na picada de Mecula para Macalange. Era preciso socorrer esse pessoal.
Os planos do regresso foram alterados de imediato.
Descolei para Mecula, onde aterrei cerca de uma hora mais tarde.
Os feridos ainda não tinham chegado, mas sabia-se pela tropa que os graves eram pelo menos três.
Após algum tempo de espera, como não houvesse notícias dos acidentados descolei na tentativa de os localizar e fazer uma estimativa do tempo que levariam a chegar à pista. Voei sobre a picada durante quase uma hora, mas não os vi.
Já tinha consumido duas horas de gasolina que, somadas às três necessárias para chegar a Nampula, totalizavam praticamente a autonomia do avião. Era preciso aguardar com calma e paciência.
Por volta das quinze horas ouvi o ruído do motor dum avião em aproximação. Momentos depois passou veloz rapando a pista em grande estilo. Era o 3449 tripulado pelo Alferes Simões Pinho e pelo Furriel Abreu Faria que vinham dar uma ajuda.
O número de feridos anunciado era maior do que aquele que um só avião podia transportar, por isso foi destacada para esta missão mais uma aeronave.
Sentados à sombra dum grande arbusto esperávamos em amena cavaqueira, conversa de encher como se diz na gíria, com o pessoal da segurança. Pelas dezassete horas soubemos que os feridos estavam finalmente a chegar.
Feridos graves eram três, transportados em dois Unimogs, incluindo dois cipaios e uma mulher. A acompanhá-los vinha também um Alferes médico que queria uma boleia para Marrupa, praticamente no caminho para Nampula. O desvio seria muito pequeno, afirmava ele com veemência. Com a G-3 ao ombro, bandoleira larga e a sua baixa estatura, faziam com que a coronha da arma ficasse a um palmo do chão. A esta figura absolutamente fora do contexto não era fácil negar boleia. Teimoso, decidido, muito pequeno, mal acabado e mal fardado, era no entanto uma simpatia de pessoa. Foi automaticamente aceite como parte do problema que tínhamos de resolver.
Às cinco e meia da tarde é quase noite naquela latitude. O Alferes Simões Pinho, que era o mais graduado dos três, determinou a distribuição dos feridos e do médico pelos aviões. Perguntou-me se não me importava de ser eu a aterrar em Marrupa.
Aeronaves prontas, fizemos finalmente um curto “briefing” ficando assente o seguinte:
No meu avião seguia a mulher muito ferida e o médico que largaria em Marrupa. O 3449 transportaria os outros dois feridos. Eu seria o primeiro a descolar e prosseguiria em velocidade reduzida até ser alcançado pela outra aeronave. Voaríamos em formação larga, à vista, uma vez que a noite assim o permitia. Aterraria em Marrupa para largar o médico que já conhecia os procedimentos para abandonar o avião nestas condições, enquanto o 3449 ficaria à vertical, voando em círculos, aguardando a minha descolagem. Seria fácil continuar a viagem como até aqui, em formação aberta.
Estava uma noite bastante escura, não havia luar e o céu pejado de estrelas, previa-se uma viagem sem problemas.
Descolei por volta das dezoito horas e tudo correu como esperado. Voámos à vista um do outro, comunicámos pelo rádio e meia hora depois tinha Marrupa à minha frente. Informei o Alferes Pinho que ia iniciar a descida e aterrar directo.
Chamei repetidamente o aeródromo na frequência habitual mas não obtive qualquer resposta. Prossegui em aproximação descendo por segurança com uma razão mais elevada do que o habitual, faróis acesos, a pista era já visível.
Foi nesta situação, em plena final longa e alta que vi aparecer pelo meu lado esquerdo as luzes de posição do outro avião, bem afastadas uma da outra (denunciando proximidade), que cruzou a minha trajetória de aproximação ligeiramente mais alta mas muito próximo da minha.
O que estava a ver era o 3449 a cruzar comigo, muito pranchado, de bojo exposto e em grande velocidade.
Logo que toquei na pista chamei-o, mas não obtive qualquer resposta.
Foi neste momento que o controle apareceu na frequência, pedindo a identificação do avião que tinha acabado de aterrar no seu aeródromo.
Larguei o médico como previsto e de seguida descolei entrando directo na rota para Nampula, que era praticamente no enfiamento da pista em que tinha descolado.
Pela rádio, fiz para o AM uma descrição resumida da situação e da missão que estávamos a efectuar, pedindo que continuassem a chamar o 3449.
Durante quase uma hora, ainda ouvi as chamadas sem resposta que o AM fazia insistentemente.
Cheguei a Nampula pouco depois das 21 horas, sobrevoando a cidade como era habitual naquele tempo e naquelas circunstâncias. Passados uns minutos a torre entrava na frequência, iluminando-me a pista e transmitindo as instruções habituais.
Após a aterragem rolei para a placa militar e assim que abri a porta do avião perguntou-me o Comandante da base algo surpreendido:

- Então Pinho, onde está o Vítor Silva?
- Então Vítor Silva, onde está o Pinho, será mais correcto meu Comandante, retorqui.

A minha “passageira” foi transferida para uma ambulância e dela nunca mais soube nada, o que era habitual.
Fui acompanhado pelos presentes para a sala de operações onde expliquei detalhadamente o que se tinha passado.
Os três ou quatro camaradas presentes no inicio da reunião eram quase uma dúzia por volta da meia noite.
Foi pedido à Beira o apoio dos PV-2 para participarem nas buscas que deviam ser iniciadas às primeiras horas da madrugada do dia seguinte.
Do AB5 (Nampula) saíram quatro ou cinco aviões, T6 e DO-27, com o mesmo objectivo.
Por volta das 11 horas foram localizados os destroços. Estavam 4 ou 5 kms à direita da pista de Marrupa para quem vem de Norte, tal como era a minha convicção e que tinha transmitido ao Tenente Carrilho. Foi com alguma facilidade que os localizou.
Nessa manhã fui autorizado a deslocar-me a Marrupa num DO-27 (3421).
A meu pedido transportaram-me aos destroços numa viatura do exército. O cenário não tinha descrição.
Tinha de ver aquilo para exorcizar os meus fantasmas.
Brutalmente chocado, fiz algumas fotografias que pela sua rudeza e despudor são impublicáveis.


Vítor Silva
Oeiras,19 de Agosto de 2011

16/08/11

753-Fumo no Lago Niassa


Em 1963 fui a Vila Cabral (AM 61) com um DO-27, numa missão de apoio logístico a pedido do Comando do Sector.
Havia poucos meses que tinha chegado a Moçambique, a amena temperatura que se fazia sentir graças aos 1400 metros de altitude do planalto criava um ambiente que me recordava a metrópole.
A noite dormia-se de um sono, e o aconchego do cobertor aumentava a ilusão de estar em Portugal.
A variedade dos produtos agrícolas próprios de climas temperados era enorme, batatas, morangos, verduras, completavam a ilusão, não sendo fácil acreditar que era em Moçambique onde me encontrava.
Depois deste apontamento que nem vem muito a propósito, vamos ao que interessa.

A organização dos voos e operações relacionadas - carga do avião, horários, definição de percursos etc.- era da responsabilidade dum Oficial de Operações, nomeado para o efeito pelo Comando do Sector.
O senhor Alferes desempenhava estas funções com tal desembaraço (vocábulo militar), intervindo em todas as áreas, que foi por pouco que não lhe entreguei o avião para ele executar por completo a missão. Na prática era só o que lhe faltava fazer, pilotar o DO-27.
O voo para Olivença, cerca de 200 km para Norte - informação do Senhor Alferes - seria um voo calmo e simples, pois a meteorologia previa um dia de bom tempo.
Poucos minutos após a descolagem já o lago Niassa era bem visível ao meu lado esquerdo. Parecia um enorme espelho azul, bem polido naquela manhã límpida e fresca. O recorte das margens montanhosas e abruptas, ou a imaginação dos meus 23 anos, levavam-me até à Suíça, onde nunca estivera mas que imaginava ser assim.
O voo decorreu sem percalços e com a máxima normalidade.
À chegada, o pessoal do destacamento militar, a autoridade civil e a população, manifestavam-se com entusiasmo. Era o avião que não viam há muito tempo, o correio tão ansiado, os géneros frescos tão necessários, o rádio novo para o posto administrativo, enfim um sem número de itens assaz importantes. Por razões diferentes de cada um, foi uma festa para nós todos.
Descarregado o avião e depois de uma alongada conversa prazenteira, descolei de regresso a Vila Cabral.
Resolvi fazer o percurso fora da rota habitual, perto do lago e a uma altitude que me permitisse gozar em pleno aquela paisagem grandiosa, quiçá única!...
Ainda não tinha voado quinze minutos nesta contemplação descontraída quando vejo para lá do meio do lago, perto do Malawi, três enormes cones negros invertidos, com o vértice ao nível da água e a base muito alta, parecendo-me acima dos três mil pés de altitude.
Só podia ser fumo, pensei. O lago Niassa com uma enorme profundidade ombreia com tantos outros grandes lagos Africanos, numa zona de “rift” tectónico que separa as placas africana e arábica, com actividade vulcânica constante. Estava explicado o fenómeno, concluí tranquilo.
O pessoal do AM 61 nunca tinha ouvido falar de tal coisa e o alferes, o tal oficial de operações, olhou-me até com um ar de desconfiança e enfado face à persistência na da minha descrição.
Por muito tempo não consegui deixar de pensar no que tinha visto e a cada dia que passava maiores eram as interrogações que se me punham. Cheguei a lamentar não ter violado a fronteira, para ir ver o que de facto era aquilo. Não voltei a ver este intrigante fenómeno das outras vezes que por ali ocasionalmente passei.
Fui pela primeira vez a Metangula em Agosto de 1965. Tinha passado já mais de um ano sobre aquela estranha visão dos cones de fumo invertidos sobre o lago. Era agora que eu iria finalmente tirar as minhas dúvidas! Após a aterragem e sem cerimónia abordei o europeu que mais perto estava do avião - um dos muitos mirones presentes pois a pista tinha sido recentemente inaugurada. Peguei-lhe pelo braço, arredei-o do grupo e perguntei-lhe: você já alguma vez aqui viu umas nuvens de fumo negro, muito altas sobre o lago? Sorriu-me e respondeu de pronto: saiba o Senhor Piloto que não é fumo nenhum, são mosquitos. Às vezes são tantos que até os motores da central param porque os filtros empapam. Não picam, são parecidos com as moscas do vinagre e a população faz caril com eles. Dizem que saem da boca de um peixe gigante, mas na realidade resultam da eclosão simultânea de milhões de óvulos.
Fiquei assim esclarecido! O mirone era um conhecido comerciante, o Senhor Adelino, que havia anos residia em Metangula e a partir de 1968 foi meu habitual cliente nos TAN, Transportes Aéreos do Niassa.

Vítor Silva

Oeiras, 15 de Agosto de 2011