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23/09/06

14-Rectificações

Gostava imenso de comprar o livro "Os Sinos de S. Bento", apenas para o ler e tê-lo, porque apesar de velho,(68 anos, a caminho de 69), não perdi o gosto pelos aviões, cuja loucura, vem que me lembre desde os meus 5 anos de idade (1943), a primeira vez que, quando meu pai era Administrador de Pebane (Alta Zanbézia), estive, no campo de aviação daquela pequena terra,ao lado de um avião que tinha aterrado lá. Foi a primeira vez que, apenas com as minhas mãozitas, acariciei a fuselagem do dito avião que não recordo da marca nem do modelo, e que disse, "quando for grande hei-de ser piloto". Mesmo depois do desastre do Comandante Chico Teixeira, a que, sem querer, assisti, não perdi a mania, sonho que só consegui concretizar em 1963. ( Por causa da minha falecida mãe) De resto refiro isso no meu livro de memórias que intitulo "Da Zambézia Ao Minho".

Agora as rectificações:

1. Não sou comandante, nem nunca fui, como a São Camposinhos refere. Fui apenas um pilotaço, embora com muitas horas de voo averbadas na minha caderneta,e também com alguns sustos por algumas pichotices que fiz, mas nunca passei, infelizmente, de um PPA, por diversas razões que poderei explicar mais tarde.

2. Não disse, nem podia dizer, que o Engº Pinto Teixeira, pai do malogrado Comandante Francisco Pinto Teixeira, estava em Quelimane na ocasião do desastre, pois era ainda muito pequeno para saber disso. O que me lembro bem, isso sim, é de um avião que acabara de descolar, e ainda a baixa altitude, praticamente no fim da pista, adornar para a esquerda, virar-se e cair, provocando um enorme estrondo e ver fogo, muito fogo, envolver o avião. Mais tarde, cerca de 10 anos depois, já eu era aluno do então antigo 5º ano do liceu, com 16 anos, passava muitas horas aos fins de semana no aérodromo Pais Ramos, a ver aterrarr e a descolarem aviões. Mas antes, a primeira vez que andei de avião, justamente com o comandante Jorge Cândido Guerra, no seu primeiro Stinson CR-ABX, foi em 1950.

3. O que eu ouvi sempre dizer, então já jovem, era que o comandante Chico Pinto Teixeira, que já vinha do norte (de Nampula salvo erro), teria dito que o avião não estava em condições de prosseguir a viagem, justamente por causa do motor esquerdo, e que, por isso, se tinha recusado a descolar de Quelimane. O pai Pinto Teixeira estava em Lourenço Marques e soube por telegrafia (pois naquele tempo, na Zanbézia os únicos telefones que havia funcionavam por linha unifilares, dentro da própria província, com telefone de magneto por manivela), da recusa do filho. E embora pai, era o Director dos CFM, logo da DETA, (como era a época do quero, posso e mando), terá mandado responder também por telegrama) "VAI DESCOLAR E VAI MESMO, PORQUE QUEM É COBARDE, NÃO VAI PARA A AVIAÇÃO. SE NÃO QUER SER PILOTO, DEMITA-SE E PROCURE OUTRO EMPREGO".

Mais tarde, quando se falava no desastre do Comandante Francisco Pinto Teixeira, já na década de 60, soube de fonte fidedigna,(por pessoas de muita confiança e que eram dirigentes dos CFM), que o pai Pinto Teixeira, ainda sentia remorsos por ter sido um déspota e ter obrigado o filho a descolar.E dizia ainda: "fui eu que, sem querer, causei a morte do meu filho e de mais pessoas".

Para mim e para todas as pessoas que conheceram o dinamismo do Sr. Engº Pinto Teixeira, grande homem, dinâmico, trabalhador e que foi de facto o pai da DETA, seguido depois pelos Engºs Pereira Leite, Brazão de Freitas, Pinto Elyseu, etc. não fica beliscado nem denegrido, por causa daquela despótica e infeliz ordem dada ao filho.

Em conclusão: já contei que o meu professor de navegação aérea, comandante João Maria Carregal Ferreira, também falava no desastre, para dizer que os aviões são muito seguros e que, 99,99 % dos desatres, a culpa é sempre do homem e nunca da máquina.

Um abraço,

Jorge Côrte-Real

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